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Quer ser património

Pacata, fria, mas linda. Três palavras para descrever uma das vilas mais sui generis do interior português. Um passeio por Marvão, concorrente a património mundial.

Pacata, fria, mas linda. Três palavras para descrever uma das vilas mais sui generis do interior português. Um passeio por Marvão, concorrente a património mundial.

Disseram-me que havia uma localidade muito bonita se seguisse pela estrada fora. A minha amiga já lá tinha estado e falava-me de Marvão, como sendo algo exuberante, de ficar boquiaberto. Uma aldeia típica plantada no cimo de um monte, requintada, fantástica, bela, histórica. Os adjectivos eram tantos que tive que pegar no carro e seguir em direcção a Marvão. Estava de visita a Portalegre. Dali seria uma meia hora até ao topo Serra do Sapoio.

Apesar do Sol bem quentinho, o clima estava ameno. Curvas e contracurvas, ou não estaríamos em Portugal, lá vou eu passando por várias freguesias que estão esquecidas no meio do mapa. Alguns restaurantes desfilam ao longo da estrada, também locais de pernoita para muitos turistas. Algumas senhoras de alguma idade levam o gado para o estábulo. Deixamos para trás a Serra de S. Mamede e começamos a vislumbrar o topo da colina com mais de 800 metros de altura. A pedra de quartzitos, dura e escura, marca toda a paisagem que vislumbro lá em cima. Nada muda quando chego a Marvão. Outras tantas curvas a subir e chegamos às Portas da Vila. O carro tem que ficar cá fora. Um enorme placar anuncia a candidatura a Património Mundial. Este desejo da população é forte e pode-se constatar isso através do cuidado com que preservam a sua terrinha. Apesar de ser quase impossível construir o quer que seja fora das muralhas, desde 1640 que o êxodo dos habitantes para localidades maiores e mais acessíveis tornou Marvão numa vila meio deserta, pacata e sem grandes sobressaltos e intentos comerciais. O passado permanece imóvel e intocável. É deste registo que vem a beleza de Marvão. Das construções religiosas e civis, com paredes em alvenaria de pedra agarrada com cal, chão de cerâmica e os telhados em telha mourisca. Casas baixas com nunca mais do que três andares, varandas de ferro forjado, alguns quintais modestos que dão o ar acolhedor a certas zonas.

Subindo pela rua das Portas da Vila, surge o Largo do Pelourinho com dois edifícios do século XVI: os antigos Paços do Concelho e a Torre do Relógio. O percurso passa, ainda, pela Igreja do Espírito Santo, e a Fonte do Concelho. Apanhamos a rua do Castelo, que nos leva até ele. Isolado, mesmo no topo, alberga um museu militar, que preserva um espólio importantíssimo, que protege registos das várias incursões militares que Marvão sofreu ao longo dos séculos.

A treze quilómetros de Espanha, a vila é perfeita como local de observação, vigia e marcação territorial. A inacessibilidade é a imagem de marca e algo que sempre atraiu as forças do exército. Ali descansa, provavelmente, o Castelo com mais rocha de todo o país, um dos mais silenciosos e um dos com a vista mais esplendorosa. Daqui avista-se o Alto e o Baixo Alentejo numa extensão de vários quilómetros. Em dias límpidos, quase 30 km à nossa frente!

Decidi subir pela escadas da muralha. Logo depois das Portas da Vila, à direita. Olha-se para cima e não se percebe a altura e a distância que temos que percorrer. Só que, dados os primeiros passos, é impossível desistir. Voltar para trás é desperdiçar energia. Contudo, é das melhores formas de se conseguir ter uma vista bonita e ampla de Marvão. Se de um lado é possível avistar toda os montes do Alentejo, do interior conseguimos vislumbrar as casinhas que se alinham e seguem os altos e baixos da rocha. Paredes brancas, que nos cegam quando a luz forte do Sol lhes bate. A Igreja no meio, aponta a sua torre ao céu. A passos curtos e lentos, chegamos a rocha firme. Para baixo, pela nossa esquerda, segue a vila. Para a direita entra-se no Castelo. Foi por aí que orientei o passo. Algumas plantinhas bordejam os trilhas sinuosos que nos conduzem, entre calhaus, à entrada do Castelo. As duas torres, encerradas ao público, estão ligadas pelas muralhas que se podem percorrer. É do alto delas que se pode avistar toda a extensão de terreno que circunda a Serra. Respiro fundo e mantenho-me ali, nariz erguido, espreitando tudo o que está à volta. A beleza do horizonte é estonteante e alegra-nos por estarmos ali.

Antes de sair, é possível espreitar para o reservatório, escavado no interior do solo, onde se acumulavam as águas da chuva, e do orvalho – que escorria pela terra –, quando ali vivia gente. A água chega a muito lado, mas ali, tão em cima, com tanta rocha pelo meio, a coisa é um bocado complicada. Por isso, esta era uma técnica para manter vivas as pequenas hortas familiares e os próprios habitantes, isolados durante vários dias (ou mesmo meses) em tempo de guerra. Se possível, visite Marvão em época baixa. Apesar de não ser um local com muitos turistas, quanto menos gente tiver a deambular pelas ruas, mais bonita lhe vai parecer a vila. Acredite. O silêncio, ali, vem do céu.

 

Informações úteis

Chegar à cidade: Seguir pela auto-estrada 6 até Estremoz. Daí, apanhar o IP2 para Portalegre e, nesta cidade, entrar na Nacional 359

Bater uma sorna: Albergaria El Rei D. Manuel, Largo do Terreiro, 7330 Marvão, Telefone: 245 909150

Outras espreitadelas: www.cm-marvao.pt

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Antonio Dias
Colaborador do TerraNatal

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