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Zita Seabra, mulher, 51 anos, casada, mãe de três filhos, assume o papel de Coordenadora da Bertrand e da Quetzal, e defende o livro como a base de toda a cultura. Num país que se diz ser de poetas, aponta o dedo aos que escrevem sem sequer ler.

 

Zita Seabra - Em prol da Cultura e da Leitura

 

O número 73/75 da Rua Garrett, no Chiado, alberga a mais antiga editora portuguesa e uma das mais antigas da Europa- a Bertrand - aqui instalada desde o terramoto de 1755. Zita Seabra, desde há 12 anos que tem a seu cargo um trabalho editorial. Neste momento, na Quetzal e na editora Bertrand. 

- Aquilo que nós fazemos é visível, editamos livros de autores portugueses e autores estrangeiros.

Reavive um pouco a história da Bertrand... 

- Em 1755, no ano do terramoto, a Bertrand tinha um catálogo de mil e oitocentos livros, o que é realmente notável até pelo panorama europeu, dizem que nós somos um país que não lê, nessa altura já devíamos ler qualquer coisinha para a Bertrand ter um catálogo desses. Já a Quetzal é uma editora muito mais jovem, tem cerca de onze anos, é uma editora mais literária, edita sobretudo poesia, arte e literatura. Tornou-se conhecida pela qualidade das suas edições. A Bertrand para além de editora tem uma rede de livrarias e tem uma livraria na net, onde qualquer pessoa pode adquirir os livros e informar-se, inclusive, das novidades. A nossa livraria virtual tem registado progressivamente um aumento de vendas, os portugueses ainda não se habituaram muito a comprar pela net, é natural que venham a habituar-se. As lojas físicas são 25 no país inteiro, a mais antiga das quais é esta, do Chiado, que funciona desde que a Bertrand perdeu as suas instalações no terramoto de 1755 e aqui passaram algumas conhecidas figuras da intelectualidade portuguesa, ao longo dos séculos, quer como administradores quer como autores

O hábito de leitura dos portugueses ainda está muito aquém do desejável? 

- Está a melhorar o que é natural face à evolução da situação económica e da escolaridade. Naturalmente que a leitura acompanha essa evolução e o aumento que estamos a verificar dá-nos uma certa satisfação, não só porque a escolaridade democratizou-se e hoje não tem comparação as pessoas que vão à escola com as que iam há 20 anos atrás, e isso reflecte-se no contacto com os livros. É muito curioso, mas em relação à literatura há um grande número de mulheres que lêem romances. Há, progressivamente, mais mulheres a ler ficção literária do que o público masculino. No entanto, é uma mera impressão, não está assente em nenhum dado científico, até porque há muito poucos estudos nesta área.

O que se lê mais? O Romance e a Ficção? 

- Depende. Excluindo os livros escolares, que não se podem contabilizar, há sem dúvida o romance, mas também alguns ensaios que são um sucesso, por exemplo, o livro do António Damásio, editado pela Europa América, "Sentimento de Si" e que é um ensaio. Neste momento, o best seller é uma biografia, a biografia de D.Afonso Henriques, do prof. Freitas do Amaral. Há também a poesia. Somos um país de poetas, há muita gente a escrever poesia e o curioso é que os livros têm uma saída muito pequena. Creio que há muito pouco hábito de ler poesia, o que é uma pena. Embora conste que somos um país de poetas, se as pessoas que escrevem, escrevem poesia, isso é logo a primeira condição para nunca terem um livro editado, porque uma pessoa que não lê poesia não pode saber escrever poesia, não pode ser um poeta porque não tem o gosto pela leitura de poesia. Recebemos muitos originais por dia para publicar e, na maioria, é visível que são de pessoas que não lêem.

E quais os livros que não se lêem ou se lêem pouco?

 - Desses não vale a pena falar porque não fazem história. Vale a pena falar daqueles que fazem história e que são livros que são um êxito. Neste momento, as pessoas estão a gostar muito de romance histórico, que é um género literário que eu também aprecio, inclusive na Quetzal tivemos um êxito com um autor americano novo Steven Saylor, com um policial histórico ("Abraço de Nemésis"). É um livro policial passado na Roma antiga, aliás não se pode dizer policial porque na altura ainda não havia polícias, como o autor explica, mas é um livro de crimes e detectives passados na Roma antiga, e são episódios muito divertidos e estão a ser um êxito, o público gostou.

Tendo a Bertrand lojas espalhadas pelo país, nota diferença de hábitos de leitura do litoral para o interior ou de sul para norte?

 - Não. Um êxito é um êxito em todo o lado, quando é bom é bom em todo o lado.

E quanto aos emigrantes, a Bertrand distribui livros de modo a chegar aos portugueses que vivem no estrangeiro?

 - Há livrarias portuguesas, sobretudo na Europa, principalmente em França e na Bélgica, onde os emigrantes podem adquirir livros portugueses. Nos outros países, infelizmente, há pouco. Nós exportamos para as livrarias existentes livros nossos e creio que muitos emigrantes, quando vêm a Portugal, têm contacto com a edição portuguesa, porque a oferta no país onde vivem é muito reduzida e limitada. Nós temos a experiência de, há uns anos, enviar um catálogo sobre Portugal para as associações dos emigrantes nos Estados Unidos e não tivemos grande feedback. No entanto, os filmes antigos dos anos 50 foram um sucesso junto da comunidade emigrante, porque lembravam ao emigrante o Portugal que eles conheciam. Pelos livros e pela edição é mais complicado, porque há uma geração que não tinha hábitos de leitura e, portanto, a geração seguinte, os seus filhos, não conhecem os autores portugueses, e aí há um esforço a fazer pelo Ministério da Cultura e que, infelizmente, não me parece que tenha grandes repercussões e grandes resultados.

Acha, então, que os emigrantes, lá fora, principalmente os seus descendentes, se vão desprendendo da cultura portuguesa?

 - Sim, absolutamente. Tirando o caso do Nobel do Saramago, que foi um fenómeno mundial, o resto mantém uma distância enorme.

O emigrante aculturiza-se numa nova sociedade...

 - Em alguns casos sim, e não é mau. É bom que bebam outras culturas. Quando as pessoas estão fora não se devem isolar na sua cultura, mas que não esqueçam as suas raízes e, portanto, acho que aí há um papel importante do Estado português de divulgação da cultura portuguesa, dos autores portugueses junto dos emigrantes para que eles não esqueçam, mas relembrem e passem aos seus filhos a cultura de Portugal... Este ano, houve uma experiência muito importante, o Salão de Paris. O tema foi "Portugal" e, num domingo, apareceram imensos emigrantes que procuravam, claramente, conhecer o que se está a editar em Portugal. Havia ali uma procura nítida de um contacto connosco...

Então, se calhar, devia haver uma maior focalização para esse público...

 - Sem dúvida, e aí o Ministro da Cultura devia ter algum papel... tanto dinheiro mal gasto no Ministério da Cultura, ao menos esse seria bem gasto... 

Já que falamos do Ministério da Cultura, o que diz à demissão de Manuel Maria Carrilho do cargo de Ministro da Cultura? 

 - É um alívio... Uma sensação de alívio

Porquê?

 - Em relação ao livro não houve praticamente política cultural, e é pena porque o livro é a base de toda a cultura. Dou-lhe um exemplo, tentámos colocar um anúncio de um livro de autor português no canal cultural, que é do Estado, a RTP2, e não fomos autorizados porque o protocolo assinado entre a RTP2 e o Ministério da Cultura exclui os livros. Fazem parte espectáculos, mas livros não, portanto, os livros não são considerados cultura. Isto é completamente ridículo e caricato, não conheço nenhuma parte do mundo onde um protocolo da Cultura exclua os livros.

E José Sasportes como sucessor? 

Espero que o novo Ministro da Cultura, que é uma pessoa pela qual eu tenho grande consideração, venha a acabar com o espectáculo que a Cultura se tornou. A Cultura passou a ser espectáculo de encher o olho e falharam as bases, aquilo que é o papel do Estado na Cultura, que é garantir que o Património está de pé e preservá-lo, é garantir que as pessoas tenham acesso ao livro através de bibliotecas públicas e da sua divulgação. Não é gastar milhões em espectáculos efémeros que, na maior parte dos casos, nem na memória ficam.

Cláudia Rodrigues
Redacção do TerraNatal

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