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Assume uma postura crítica face a uma sociedade em que Deus é o Dinheiro e onde a competição
desenfreada entre potências conduzem a uma cada vez maior servidão aos novos patrões do mundo. Sonha por um Mundo melhor, por uma Pátria que seja Mãe, em vez de madrasta... |
Entrevista com
Filipe La Féria
O espectáculo Amália é o resultado de um desejo da própria diva do fado, em ver a sua vida retratada pelas mãos de La Féria...
É verdade. Uma vez, li numa entrevista e fiquei surpreendido, porque a Amália dizia que via a sua vida escrita por mim. Gostava dos meus espectáculos e tinha uma grande ansiedade de ver a sua vida retratada num musical meu. Tudo estava combinado para Amália ir à estreia, que se realizou no Funchal. Infelizmente, ela não foi... mas guardámos-lhe sempre um lugar com flores.
Este é o seu maior desafio?
Sou um homem de grandes desafios. A minha vida foi sempre um desafio. A Amália foi um dos maiores, na medida em que foi muito difícil por ser um espectáculo muito ambicioso, com um aparato cénico complicado. São 58 actores, para além dos músicos e técnicos. Foi, de facto, um grande desafio, um perigoso desafio. Felizmente, o público está a corresponder de uma forma fantástica e a encher todos os dias a casa. Isso faz-me feliz.
La Féria não conta só uma história num musical, enquadra-a também num espectáculo multimédia...
Sempre tive esse desejo. O recurso à tecnologia ajuda a contar uma história que se passa em vários locais, onde a narrativa dá saltos no tempo. Amália, para além de querer retratar a mulher solitária, o ser humano de grande qualidade desconhecido do grande público, é também a história de Portugal nestes últimos 80 anos. Amália Rodrigues nasceu na Primeira República , viveu com e para o Estado Novo e assistiu ao 25 de Abril. Trata-se de uma época muito rica e
que emociona as pessoas. Para além do reencontro com essa personagem extraordinária e única que é Amália Rodrigues, é também a capacidade de se identificar com coisas que o próprio público passou e que os jovens já ouviram falar. Por exemplo, os ingleses gostam muito de teatro porque gostam muito da sua História. O Teatro torna-se vivo quando um povo vê a sua História retratada. Voltamos à Grécia, onde o Teatro era a história da Polis. Estas enormes filas de pessoas, que gostam e emocionam-se com o espectáculo, acontecem porque é a nossa história, não é só a Amália... Amália somos todos nós.
Não será um risco representar uma história tão recente?
Não. Já temos distância suficiente, não da morte porque essa é inesperada, mas 80 anos passados permite olhar para a nossa memória serenamente.
Com base na biografia da fadista escrita por Vítor Pavão dos Santos, Amália retrata a vida da diva do fado em fases distintas...
São três as actrizes que interpretam a Amália: uma pequenina, a Marline, a Liana que é uma grande revelação, e a cantora Alexandra, que se revela também uma grande actriz neste espectáculo. São exactamente as três fases, as três amálias que escolho. A Amália é quase uma história da Cinderela, é a menina que vende limões e laranjas em Alcântara que, depois, se torna numa rainha musical. Há milhares de pessoas que nâo sabem onde é Portugal, no Mundo, e sabem quem é Amália Rodrigues. É transversal a todo o mundo.
É legítimo dizer que ela representa a própria diáspora?
Penso que sim. A aventura pessoal que Amália Rodrigues viveu identifica-se com a nossa própria vida. De facto, a Amália tinha uma grande qualidade artística e uma grande inteligência. Nós tivémos a sorte de viver na era da Amália... é como a Callas... são pessoas únicas. Ainda hoje, estava a ouvir um disco de Amália e senti que ela falava comigo. O que ela canta é tão sentido, tem tanto do nosso sangue, é tão humano que fala connosco, mesmo depois de morta, mesmo no passado.
Aliás, a história do fado confunde-se com a vida da própria Amália Rodrigues: triste, melancólica e saudosa...
Eu defino-a com as palavras que ela confessa ao Vítor Pavão dos Santos: ela é um Gato e, como ele, passa pelas coisas, nunca está. Está e não está. A última visão que eu tenho da Amália, quando ela veio a uma festa, é a de uma mulher que tinha os sapatos muito apertados e me pediu para a acompanhar ao táxi e, aquela mulher que tinha arrastado multidões ao Coliseu, estava completamente sozinha. Era uma pobre senhora com os sapatos apertados e só.
Apesar de ter conquistado o mundo era só?
A grande companheira da Amália foi sempre a solidão. Acontece quase sempre às pessoas que se expõem muito. O actor também vem desse enorme abismo, representa para a escuridão, encadeado pela luz, mas é produto de uma grande solidão essa apoteose que fazem, da exibição da sua máscara, do seu corpo.
Acha que é por isso que este espectáculo assume tamanha forma humana e emotiva?
Penso que sim, e sobretudo porque se homenageia, não só a Amália como Alain Oulman e Frederico Valério, pessoas de uma enorme grandeza. As pessoas percebem mais os fados da Amália depois de ver o espectáculo. É esse o segredo do sucesso do espectáculo em que penso que fui feliz, agora que já tenho alguma distanciação. Todos os poetas e compositores se inspiravam muito na vida de Amália e o meu trabalho foi um pouco perspicaz no sentido de procurar juntar os acontecimentos verídicos da Amália com os fados que ela escrevia ou que lhe escreviam e percebe-se essa cumplicidade, embora seja uma interpretação poética da minha parte.
E agora?
Agora é o que o público quiser. Gostaria de levar este espectáculo a cidades povoadas por portugueses e em que Amália tenha sido muito amada, como Tóquio, Paris, Madrid, Joanesburgo, Rio de Janeiro e São Paulo. Os dados estão lançados, há já alguns convites, mas cabe ao Homem concretizar os sonhos.
Falando no resto do Mundo e nos portugueses que nele vivem
espalhados, como vê o emigrante português?
Penso que ser emigrante tem o seu lado doloroso, porque um país que não dá aos seus filhos condições para uma vida, tanto quanto possível, feliz, é um país que ainda não atingiu a sua função, ainda o Portugal não se cumpriu.
É da opinião de que nos esquecemos um pouco dos nossos, lá fora?
Sim, penso que há um grande esquecimento. É uma vida muito dura, eu próprio já tive essa experiência, embora em Londres, nos anos 70, numa época em que tinha uma bolsa de estudo da Fundação Calouste Gulbenkian, mas tinha de trabalhar ao mesmo tempo. É muito duro e muito ingrato, também. Construímos uma vida, não na nossa terra porque ela não nos soube compreender, em vez de mãe foi madrasta. Um dos sonhos da minha geração, das pessoas que acreditavam no 25 de Abril, era que esse estado de coisas se modificasse. Infelizmente não se modificou. Cada vez há mais emigração, cada vez mais as pessoas partem por uma incompreensão do país em que vivem. Se repararmos, os nossos campos estão tão abandonados. Eu sou do Alentejo fronteiriço e sei que, mesmo as pessoas que vivem nas terras, vão trabalhar para Espanha e regressam à noite. Muita coisa não está bem...
Qual seria a solução?
A solução é não vivermos numa sociedade tão egoísta, tão concentrada, nestas megacidades completamente estupificadas, e, sobretudo, em que os valores não sejam o dinheiro, o egoísmo, uma competição desenfreada num país pequeno dá sempre mau resultado. Asssim como uma tão grande servidão às grandes potências e às multinacionais e aos novos patrões do mundo. Não é uma sociedade muito atraente, não acha? Numa sociedade em que o Deus é o dinheiro... Deus não é o dinheiro...
Cláudia
Rodrigues
Redacção do TerraNatal
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