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Pôr-do-sol

 

    O rapaz queria pegar fogo ao mar... Sem sucesso. Mal lhe tocou com o fósforo, este apagou-se. Resolveu tentar de novo, mas o vento falou, e deu ordem ao fósforo para que cessasse o fogo. O rapaz, habituado a ser persistente nos seus quereres, poderes e mandares resolve puxar de outro fósforo. Este terceiro, talvez zangado com a vida, eis que se tenta pelo suicídio e atira-se dos dedos imponentes do rapaz e cai sobre a areia semi-molhada. O rapaz desgostoso, tenta em vão ressuscitá-lo... Vai de raspá-lo nas paredes laterais da caixa, numa luta louca pela vida do pobre fósforo. Sem sucesso, mais uma vez. Mas o rapaz estava habituado a ouvir o pai dizer-lhe “sê persistente e luta pelo que queres”, e acima de tudo, tinha aprendido que dava sempre resultado seguir os conselhos do seu progenitor. Então, nesse mesmo sentido, toca de tentar mais uma vez... Acendeu o fósforo debaixo do casaco, de modo a que este não ouvisse, novamente, as ordens do vento... E este não ouviu! Mas, havendo dias, como os há, em que o Universo parece querer contrariar as vontades dos homens (e dos rapazes), eis que o enxofre libertado consequente do exorcismo imposto ao pobre do fósforo, tenta por via nasal, possuir a alma do rapaz. Azar, o do invasor... Mal entrou pelo nariz, foi imediatamente expulso pela boca, levado num espirro que a alma concedeu ao corpo. Voltou ao fósforo, o atrevido! Revoltado, apagou a chama que ele próprio ajudara a atear. Revoltado, ficou também o rapaz, que vira desfeita mais uma tentativa de pegar fogo ao mar. Zangado, resolve-se por pegar fogo à caixa dos fósforos e deixa-a cair sobre a areia semi-molhada... Lá dentro, os pobres, desesperados, ardendo com a própria casa, rezam por um milagre, enquanto o rapaz se afasta frustrado e sem sentimento de culpa. De súbito, uma onda atropela a caixa semi-ardida, deitada sobre a areia, e arrasta-a consigo para o mar imenso. O rapaz, já longe, olha cruelmente para trás, numa tentativa de ver uma caixa de fósforos ardida... Eis que vê, lá atrás, um imenso mar a arder, perdendo a cor azul para um tom laranja vivo que se torna, a cada segundo que passa, mais evidente...

    - Consegui!!! – Gritou extasiado, o rapaz, quase incrédulo.

    Desde esse dia, todos os dias à mesma hora, o rapaz voltava ali e punha uma caixa de fósforos a arder a beira mar... Depois, esperava que viesse uma onda e levasse consigo a dita caixa. Todos os dias, ao fim da tarde, o rapaz assistia ao extraordinário cenário que ele próprio provocava, e ficava ali a ver o mar arder, quase descrente de tanto poder que pode ser concedido aos homens (e aos rapazes) pela simples vontade de se querer.

 

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