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Uma vida a arder
- Morreu tudo o que eu era... – Lamentou-se o velho César, perante a calamidade que os seus olhos vêm... O velho César nasceu, faz para mais de cinquenta anos! Enquanto novo, passou parte da sua infância como tantas outras crianças, entre brincadeiras e jogos próprios da altura... Andou na escola primária, mas logo resolveu que não havia de querer estudar. Não queria ser sábio em matemáticas, línguas estrangeiras ou ciências... Somente queria vir a ser um sábio das terras que um dia havia de herdar dos seus pais, e a única linguagem que lhe interessava verdadeiramente era a da sua aldeia, cujo sotaque era notoriamente acentuado. Aos doze anos pediu ao seu pai que o libertasse da obrigação de ir à escola, e pediu-lhe que lhe ensinasse todos os segredos da terra. Aprendeu com facilidade aquilo que estudava com gosto, e tornou-se cedo, um mestre das terras. Aos dezassete anos de César, o seu pai faleceu e pouco tempo depois o destino quis que a sua esposa lhe tomasse o mesmo caminho... César ficou sozinho com as terras e a cumplicidade entre o homem e o campo aumentou com a passagem dos anos. Em pouco tempo, já conhecia mais da arte do que o seu pai alguma vez havia conhecido. Era jovem e tinha a mente aberta às novas tecnologias... Aos vinte e quatro anos, César conheceu aquela que havia de vir a ser a sua esposa no ano seguinte. Aos vinte e seis anos teve um filho a quem deu o nome de seu pai, em homenagem do mesmo... Dois anos depois comprou o lote de terreno do vizinho, que era da sua idade mas que tinha estudado e não queria trabalhar no campo. Aproveitou então, o seu velho terreno para cultivo, e o terreno recém-adquirido para poder ter o seu gado... Comprou as primeiras cabeças de gado com muito sacrifício, uma vez que tinha uma família para sustentar e havia investido dinheiro muito recentemente na compra do lote de terreno. Treinou dois cães abandonados que o ajudavam a cuidar do gado e em pouco tempo ganhou dinheiro para triplicar as cabeças de gado. Fez bons negócios e não demorou muito a construir uma casa maior, com um quarto individual para o filho, algo com que ele próprio tinha sonhado durante a sua infância... Os seus bens foram crescendo e o seu filho também não demorou muito a tornar-se num jovem adolescente... César insistiu, ao contrário do que o seu pai tinha feito consigo, que o seu filho estudasse matemáticas, línguas estrangeiras e ciências. Este seu rebento tornou-se engenheiro e não tardou a viajar para o estrangeiro, onde se instalou definitivamente. Com o passar dos anos, César passou a ver o filho com diferenças de dois a três anos e somente se contentava em falar com este ao telefone uma vez por ano, pela altura do Natal. Aos quarenta e oito anos de César, um atropelamento fatal roubou a vida à sua esposa... A fatalidade serviu para que César pudesse ver o seu filho, duas vezes no mesmo ano. - A minha vida ardeu e somente lamento por não poder nascer de novo... – Raciocinou o velho César... Agora, aos cinquenta e quatro anos de idade, um fogo que se fez sentir um pouco por todo o país, debaixo de um calor de um verão como há muito não se fazia sentir em Portugal, roubou-lhe quase tudo o que lhe restava: a casa, os animais, as plantações, e ainda mais importante que tudo isto, as recordações daquilo que tinha sido a sua vida de trabalho e constantes sacrifícios... A sua vida ardeu naqueles dois lotes de terreno. - Começar de novo aos cinquenta e quatro anos não é tarefa fácil... – Completou o raciocínio, enquanto as lágrimas do desalento caíam sobre as cinzas já apagadas pelo passar do tempo, debaixo dos seus pés calçados pelas únicas botas que lhe restavam... <% ShowRating %>
Morreste, Amigo »»» |
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