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Morreste, Amigo

    Eu aqui, dominado pela solidão que me deixaste ao partires, aturdido aos outros problemas que outrora me fustigam, cansado de chorar por ter de te ver partir. Só a memória e esse milagre de te recordar deixam que tu ainda vivas em mim, talvez para sempre, se eu não te esquecer. Duvido que te esqueça, pois eras demasiado omnipresente na minha vida, para que te tornes um ‘omniausente’ só porque o destino quis que saísses daqui. Daqui, aonde passamos por tanta coisa juntos... Daqui, aonde crescemos a dividir o que era de um e o que era do outro, e o que passava a ser de ambos. Aonde nos sacrificámos um pelo outro, nas situações mais inacreditáveis. Aonde rimos e chorámos juntos. Aonde amámos mulheres diferentes e amámos as mesmas mulheres também. Aonde partilhamos objectivos e pontos de vista e aonde discordámos em ideias e ideais. Aonde, sempre que podíamos (e podíamos muitas vezes), nos ouvíamos um ao outro. Aonde nos tornámos amigos, talvez não de sempre, mas para sempre...

    E, agora, vejo-te aí deitado sem estares propriamente aí, pois duvido que queiras morar nessa caixa onde nos metem depois de irmos ' desta para melhor '. Talvez estejas a morar num sítio bem melhor que este, aonde passamos juntos por tanta coisa, e talvez tenhas feito até, novas amizades. Por isso mesmo, não tenho pena de ti por teres morrido (palavra horrível, para descrever uma simples ida para outro lugar, seja lá para onde for), ou por teres viajado (gosto muito mais assim). Sinto sim, pena de mim, que fiquei privado de ti no futuro... Mas tenho-te no passado e juro que te guardarei aí, nas minhas recordações, para que, em exercícios de memória, possamos passar outra vez por tudo o que passamos juntos. Será por ti, meu amigo, que no futuro viverei muito mais vezes no passado... Como se do presente se tratasse!!!

 

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