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QUAL É A VONTADE DOS HOMENS? ( parte 1 de 2 ) Olho-me ao espelho e não vejo senão a minha própria sombra. Desço dentro da minha alma por uma escadaria de pedra e paro defronte de uma calçada pombalina, mas só consigo observar os contornos arquitectónicos. Preocupada com o percurso que quero delinear, não consigo vislumbrar senão o meu ONTEM marcado pela felicidade e revejo-me criança nos braços de meu pai. Com orgulho incrível ? e com a ponta dos dedos ? delineio ao pormenor o interior do meu herói e constato que ele foi a única pedra do jardim que eu tanto quis semear. As recordações do meu passado são um somatório de imagens excelsas, nomeadamente as alegrias incontidas, sempre que pensava ter encontrado a felicidade. Lindo o percurso de vida que tracei com todos os adornos, mas que não fui capaz de equacionar, justamente porque o MEDO, cedo, assolou a minha existência. Vivi durante décadas na expectativa de adquirir a paz que qualquer ser humano deseja; todavia tudo o que encontrei foi um monte pleno de silvado, sem eirados lindos nem flores frescas. Contracenei muito com a nostalgia, pois cedo demais mastiguei ? com muita dificuldade ? o viver só e o ser de ninguém; porque a companhia que fazia era, indubitavelmente, só mera necessidade para quem era anfitrião e gostava de saborear a presença de alguém tímido e submisso. Olhei o mundo com terror por vê-lo liso, feio e despido de qualquer aguarela e ? tremendo sempre - , escrevi em poesia a vida dos desprotegidos, dos filhos da rua e dos netos do Atlântico. Depois não fiquei por aqui e pintei a aguarelas lindas alguns contos de momos e fadas para registar a dicotomia social, que cada vez era mais vincada. A medo dissequei ao pormenor a cidade que me foi berço e fiz-lhe uma ode maravilhosa onde lhe solicitei todo o apoio que o restante MUNDO me vetava. Disse-lhe chorando que queria ser feliz, por algumas horas, que queria ver o sol brilhar na minha direcção, e que queria conseguir beijar Jesus para lhe pedir uma côdea de felicidade por parca que fosse. Cheguei ao ponto de lhe dar tanto de mim, que lhe jurei adormecer para sempre no céu que é dela e no seio que é o seu. Há tantos anos longe do espaço nascido, mas tão carente do seu abrigo, da sua compreensão e do seu carinho. Onde está a mãe que eu sempre quis ter?! O que é feito dela... porque é que sempre pensou que eu viveria sem ninguém e sem necessidade daqueles beijos nunca trocados?! E o irmão que tive, para onde foi, o que faz agora, que não sente nem pressente que sou pedra jogada na sarjeta?! E a filha, sim a minha... aquela que eu guardei com fervor nos braços que foram meus e no seio nunca quebrado... onde está ela, porque é que esqueceu que eu existo, e porque é que despovoou a minha vida, dizendo que mais vale viver sem mim do que comigo?! Eu dela quereria exclusivamente o olhar doce, aquele que tive em criança... queria aquelas mãos que tanto beijei e gostava de ouvir aquelas frases curtas, mas plangentes de «mãe, gosto tanto de ti!», mas o tempo moeu a mó, o tempo calcinou o ser que eu trouxe ao mundo, e hoje, repele-me porque não lhe posso dar aquilo que não tenho, isto é, forças para actuar contra a minha própria personalidade e contra a minha visão de mulher. »»»
O Teu percurso »»» |
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