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AFECTO DOS AFECTOS

VIANA CHORA BAIXINHO

(parte 1 de 2)
 

Vivi o suficiente para me sentir realizado e feliz. Hoje, sou e ontem fui, aquilo que os homens quiseram. Um edifício elegante que tem imensa traça de história para contar. Um dia fui viagem onírica e passei à realidade quando um conjunto de cidadãos de bom tom (do arquitecto ao engenheiro, passando pelas entidades camarárias competentes e pela empresa construtora) resolveram que eu deveria ser, qual embrião, colocado no ventre de minha mãe para ser eternamente «humano»/físico e feliz.

Viana fez-me o enxoval, desenhou os meus contornos e fez-me de tal sorte excelso que fui durante décadas olhado com êxtase e com delírio, direi mesmo olhado com orgulho pelos vianenses que me observavam quase como se do Colosso de Rodes se tratasse.

Vivi muitas décadas feliz, porque fui Júpiter vendo a aurora aparecer, deliciando-me com os nascimentos dos muitos bebés que tiveram no meu seio a oportunidade de vir ao mundo.

Vi muitos noivos e noivas saírem enlaçados do meu estendal, percorrendo quais borboletas trepadoras os meus degraus, mercê das muitas recordações da infância, aqui passada e agora espartilhada e esfumada.

Vi muitas lágrimas de tristeza e de alegria saírem em cascata quando a situação existencial era caótica ou apoteótica.

Direi que vivi no seio da cada homem e mulher que me comprou, durante o Tempo suficiente para gritar alto que sou amado de sobremaneira, e que é insólito, senão incongruente matarem-me extemporaneamente.

Diz o Homem, tendo como trampolim o senso comum que é infeliz aquele que parte antes do fecho... então e eu?! Será que não tenho afectos e qual menino pardal do telhado pertenço à morte e dela sou filho e neto?!

Tenho afectos, decerto, porque o Homem, muitas vezes cria com o seu espaço habitacional (senão sempre) uma empatia de tal sorte que se traduz num Amor maior que «nem às paredes é confessável».

Vejo - embrulhado no seio de uma dor incontável a estranheza daquele dito insipiente requerendo a minha morte precoce, só porque a força dita a lei. Mas porque é que me trouxeram ao Mundo... porque é que não fui objecto de um aborto livre?! Deixaram-me nascer, deram-me MÂE (Viana) PAIS (Câmara e Construtor) e AVÓS (opiniões a seu tempo expressas por anciãos) e obrigam-me, agora, a partir deixando que, os filhos que amo, gritem a alta voz que não devo morrer, porque tenho ainda muito para dar... tenho encanto feito e por fazer... e morrerei quando envelhecer, porque morrer a meio da vida é inóspito, ainda por cima, quando se parte de boa saúde.

Se se está na era do culto do belo... porque é que não me deixam continuar a saudar a minha cidade e os filhos que criei no embalo destes braços quais couraçados ainda fortes. Recebi no meu seio muitos filhos deste Portugal, emigrados e que de retorno ao nosso canto escolheram o meu ventre como sepultura existencial... então, mas que leis são as nossas, que se distorcem à medida que o Homem cresce.

Se se diz que «a velhice é um posto»... renovem o aparatoso bairro velho da cidade, porque muitos fogos clamam prudência mercê da idade... e têm já diagnósticos feitos de onde se constata a necessidade de «penicilina dada a curto tempo para sobreviver». Assim sendo, deixem-me existir, porque estou certo que se trouxerem alguns kilos de pólvora para me mandarem para as arenas gregas, perdidas no tempo, muitos vão ser aqueles que amamentei e que pelo peso da idade, pelo afecto e pelo desgosto, partirão lado a lado comigo em direcção dos deuses maiores, solicitando que o Quinto Império pessoano chegue depressa... «É a Hora...!».

Sou o EDIFÍIO JARDIM, pleno de mil flores e amores que não quer de modo algum morrer, por ter consciência plena do projecto de vida que elaborei, e por consequentemente, ter nítida sensação do muito que ainda tenho para ofertar a Viana e ao meu país.

Chamam-me EDIFÍCIO COUTINHO... eu sou tudo aquilo que o Homem quer, mas só não permito é que «... o dia em que eu nasci moura e pereça...», porque muitos mais dias, edifícios e vidas onde nascer à minha imagem apesar do PROJECTO POLIS, pois acrescento que, se POLIS é cidade... logo cidade é vida e não sepultura... deixem-me viver, para vivendo... ver!

Prudência... sou de meia idade, logo respeitem os meus AFECTOS! »»»

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