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VIAJO SEM SUCESSO

( parte 1 de 2 )

   Em sonhos desvendo cavernas de alegria que não existem. Quero agarrar o sol e a lua, mas não sou capaz. À imagem de uma bailarina de competição tento colocar-me em pontas para alcançar o sopé de uma montanha, mas tudo é infrutífero, porque escorrego de imediato e caio - (felicidade)!

Um dia quis ser maestro, porque a música é um excelso sedativo para problemas de ordem vária, mas a batuta caiu-me de imediato, isto é, tudo para que nasci, não encaixou neste traçado existencial que delineei. Recordo, que quando era criança encetava algumas máscaras tentando ser, uma menina prendada, cheia de sucesso, mas quando a brincadeira tomava contornos idílicos, eu acordava devagarinho mercê de uma voz soante, que me solicitava a deslocação rápida para o berço do meu irmão mais pequeno que dormia sozinho.

Sempre quis sentir o cheiro da liberdade, o paladar do amor e o toque da amizade, mas apesar de muitas tentativas e de tantas lições estudadas, tudo foi viagem onírica e sentimento acabado. Quando andava com o meu irmão mais pequeno às costas sonhava que era rainha, e que ele seria qual coroa que docilmente me fora colocada à cabeça, mas chegada a casa percebia que a verdade era o real e a rainha havia descido do pedestal e era agora aia; aia de linho vestida, aquela a quem se ordena que faça a comida, que lave a roupa e que cuide dos pequenos, porque o dia está no fim. Vezes sem conta, adormeci ao som de Mozart, mas esta melodia era demasiado estranha, porque os acordes escutados eram os gritos vindos da casa do lado... eram os choros de crianças como eu, que levadas pelo sacrifício assistiam a uma cena macabra de desmandos entre pai e mãe.

Muitas vezes perguntei, como é que uma mulher pode viver, coabitar com um indivíduo que a maltrata ao ponto de a marcar?! Mas a resposta era só gota de água escondida nos olhos da vizinha, que de ar desmaiado, quase pedia que lhe dessem um pouco de carinho, porque não tinha nada nem ninguém que a protegesse daquele ente selvático que mercê de uma qualquer doença psicológica, vivia trucidando, quem dele cuidava com carinho e a medo. »»»

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