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VIAGEM
 

(…)

«Mãe! Passa a tua mão pela minha cabeça!

Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade!»

                                                                Almada Negreiros

 

Já cheguei!

Creio que não percebeste que viajei para muito longe de ti. Fui horizonte acima em busca do El –Dourado mãe, talvez o encontre. Quero que não vertas lágrimas pela minha ausência. Acredita que não é prudente deitares tanta dor para fora dessa alma denegrida e carregada de porquês.

Disse-te, ainda há pouco, nos teus sonhos de mulher perdida, que te amava de sobremaneira. Só te pedi que permitisses que fizesse esta viagem «… vem ouvir a minha cabeça contar histórias ricas que ainda não viajei!», porque outros valores «mais altos se levantaram». Acredita que a saudade de te deixar foi profunda; todavia quando é necessário que o Homem parta, quem sou eu, tu ou outro alguém para evitar que a viagem se dê, entende!

Olho-te e não te reconheço! Doce mulher onde está a paz que te coseu, o amor que dentro de ti bebi a jorros, o que fizeste da tua imagem, mal adormeci?!

Quero que – olhando a fotografia que deixei em cima da mesa de cabeceira – me contes o que diz o mundo da minha ausência. Conta devagarinho o que a tinta escreveu sobre o «adeus» que fiz, sorrindo. Conta-me soletrando, para que não perca pitada da história que quero reter. Faz isso por mim e por ti, porque eu, escuta mãe, eu estou bem. Daqui… do alto deste promontório revejo-te e esqueço que parti! Afinal só percorri algumas léguas em busca da alma que era minha, mas que se espatifou nesse mundo onde ainda tu habitas. Um dia verás que esta viagem é a mais linda de todas!

Creio que ninguém entende que, aquando da minha viagem algumas coisas mudaram. É verdade senti – pela primeira vez –, que os amigos que tinha se haviam multiplicado, que as páginas dos jornais que nunca haviam falado de mim agora rasgavam-me por todo o lado; pois é… afinal é verdade que, é necessário que se viaje, para se dar conta daquilo que o mundo sente ou finge sentir!

Mãe, havias-me dito isso tantas vezes! Levado pela ânsia de viver mais e mais, esqueci de perceber certos contornos, mas hoje até aqueles que me olhavam de soslaio, me ofertam flores e até quase me fazem hinos à imagem que deixei no grande ecrã.

Não quero que sofras, entende que volto depressa – em sonhos para te suavizar a vida e a história. Ouve, o que diz o poeta e retém «…. Tu a coseres e eu a contar-te as minhas viagens»! Cose a minha vida com a tua, fala ao pai do amor que era nosso, diz à mulher que amo, que é tudo para mim, e quando adormeceres… eu estarei aí, prometo!

Adeus, MÃE!

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