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SOFRER ANTES DO FIM

( parte 1 de 2 )

Vi-te qual menino perdido no meio de matagais... nascias tão solenemente que quase senti que o Mundo era um espaço idílico onde a beleza se confundia com o teu rosto de anjo celeste. 
Linda aquela manhã de Primavera plantada num Domingo de Maio quando os frutos e as aves vêm cumprimentar de mansinho o Homem e o Cosmo. Dir-te-ei que quando o «embrulho» se desfez e tu choraste, tomei consciência plena de que vieras de mim e que serias meu até que o vento norte tomasse contornos do domínio do incrível. 
Pensei que a tua pessoa seria sempre o meu presente soado e mastigado dia a dia, porque te trouxera nove meses envolto no meu querer mais forte. Recordo aquele primeiro olhar fixante que deixava adivinhar um amor maior intersectado por nada nem por ninguém. Qual fera de um campanal trouxe-te agarrado ao seio meses consecutivos temendo que alguma bactéria te envolvesse a existência e te esgotasse a vida. 
Passei dias incontáveis – dos três meses logisticamente doados – a olhar-te e a oferecer-te o melhor de mim. Falava-te em surdina e, qual Vénus trepando ao alto do monte para vislumbrar Eneias, também eu te oferecia o melhor do meu ver, pois até descobria que um novo cabelinho nascia na tua bonita tez de criança angelical. 
Constatava, dia após dia, que te parecias demais com o teu pai e o orgulho extasiou-me de tal sorte, que quando vos via, lado a lado e adormecidos ficava extasiada à procura da ETERNIDADE. Não queria sair daquele mundo ideal nem tão pouco auscultar a rádio ou a televisão e constatar que meninos como tu, aqui ou noutros cantos do mundo sofriam a amargura de serem de ninguém e de se sentirem refutados pelas mães, solteiras ou alienadas mercê de qualquer hecatombe. 
Julguei-te sempre o meu tesouro, o mais forte por entre tantos, e à noite, quando o manto negro nos vinha saudar abria as persianas para te oferecer a Deus e para lhe dizer que eras fruto de um amor maior que urgia ser ventilado sempre. Disse-lhe, muitas vezes, que se ele era pai, decerto dar-te-ia sempre a possibilidade da aquisição da felicidade e jamais te deixaria cair no abismo da dor ou da indiferença. 
Numa noite de luar, tinhas tu sete meses ofereci-te, qual bola de neve, aos meus versos e pautei uma canção excelsa sobre a tua frágil figura de menino vindo dos confins do infinito para ser amado à exaustão. Depois foste sempre o meu ponteiro de segurança para tantas lições de escrita prosaica ou poética e para ti fiz versos rimados, soltos, sonetos odes e elegias cujo tema era, indubitavelmente, a Criança, os seus direitos e os seus deveres. Na minha imaginação de mãe eras sempre o porto de abrigo, o salva-vidas e o «homem aranha» capaz de voluntariamente chegar a um alto promontório para atingir a bondade. 
Cheguei a escrever que serias sempre a mão direita dos desprotegidos, a bengala dos sofredores e o pão quente dos pobres. Rimei muito sobre ti, mas sempre consciente de que o fazia por análise contrastiva com outras crianças de outros matagais, cujas famílias vergadas sob o peso da vida dura pensam que, que um filho é mais um fardo, mais uma boca para comer embora tivesse sido vontade de Deus! 
Sofria com tudo quanto me rodeava, temendo um dia perder-te por entre uma multidão de gente que te apelidasse de companheiro, amigo, ouvinte ou Senhor. »»»

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