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SILÊNCIO E PÓ 

Ouço o eco dos teus passos.

Tudo se perdeu no Tempo. Atrás de mim, ficou a mágoa de olhar a porta e perceber que por ali partiste, um dia, sem capacidade de resposta.

A entrada agora está fechada. Ali entra a nostalgia de um passado presente, entra o sonho de um dia que se soma ao outro, e ainda cabisbaixa entra uma névoa daquela saudade de que são feitos os sonhos.

Há muito tempo vi – ao teu lado – um mar excelso onde muitas ninfas mergulhavam, gritando que a vida era uma espécie de cristal, tão puro. Mas agora vejo que o pesadelo ou a febre estavam à minha beira, viviam lado a lado comigo, porque finalmente quando acordei, percebi que a vida é aquele pó magoado, aquela água que corre rápida em busca do oceano que se perde de vista. A vida é aquilo que quisermos que ela seja, e eu que outrora a tinha como orquestra e sinfonia, hoje tenho-a como vaso quebrado, porque me partiram as cordas da guitarra que eu tocava, quando sorria ao universo num grito recôndito de … aleluia… sou feliz!

Vejo a única recordação que ficou atrás daquela porta: a fotografia quase quebrada, mas onde o teu sorriso prevalece igual a sempre. O que fizeste dele, ainda é teu?! Conta-me por favor. Sabes, gostava que me dissesses se ainda brincas com aquelas gargalhadas tão estridentes, que quase acordavam a vizinhança. A ser verdade, mesmo que não respondas, eu já sou de novo feliz, porque ao menos sei que não perdeste a capacidade maior de um ser humano: esboçar o mais fresco dos sorrisos, nos momentos de solidão.

Ouço, sim ouço … ouço o barulho fresco e leve que a porta fez ao fechar-se. Eu não esqueço que aquele som significou o teu fecho, o fim de uma vida grande, com muitos altos e alguns baixos, mas que foi vivida com vontade de atingir um alvo seguro: o sul quente do nosso amor!

Cuspiste na minha vida, e fugiste da tua. Deixaste para trás a porta e aquele abraço que te dei naquele dia quente, quando me mostraste o presente. Será que te recordas que, quando me ofertaste o prémio do teu trabalho eu te abracei com laivos de loucura?! Se esqueceste que o fiz, lembra-te agora, mas se puderes! Todavia, se não te assola qualquer recordação, esquece que, algum dia, vivemos lado a lado, e parte mar dentro em busca da tua felicidade. Procura nos outros aquilo que, afinal, eu nunca fui capaz de te ofertar. Acredita que não fico triste! Poderei ficar estupefacta, supostamente perguntando à vida o porquê, mas triste jamais, porque quem é crescido quer, para os seus amados, o melhor do mundo, e isso é uma conquista e dá pelo nome singelo de felicidade! Se estás feliz, eu estou contigo, e mesmo na ausência tens a presença da máxima que te deixo: que nunca passes pelo pesadelo que eu galguei, porque dói demais e faz feridas agudas!

EU!

 

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