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O TEU PERCURSO
 

Corro por este carreiro estreito, mas não te encontro. Busco-te por detrás da cortina, mas é difícil perceber-te, porque o tule não deixa que veja os pormenores da tua pessoa. Mas eu sei quem tu és e o que fazes. Eu conheço as faces que são tuas, e que muitas vezes tomam tons, que denotam nostalgia e até desespero.

Não esqueço, de modo algum, aqueles dias menos bons que passámos olhando o sofrimento que era teu, e querendo humanamente resolver tudo na hora certa. Mas não era ainda a hora da solução. Tudo era uma vontade férrea de conquista, e por isso, tropeçámos nos sonhos que eram nossos. Foi preciso ver-te de malas feitas a preceito, para perceber que só te reencontraria após a perda. Afinal, não eras tu a criança que eu amara com tanta força, aquela por quem teria dado a vida, se ma tivessem pedido. Essa é outra pessoa, é um ser carregado de amor e de carinho; sentimento feito de massas possantes daquelas que confeccionam os sonhos. Essa és tu, a menina que num dia lindo de Primavera disse ter vindo ao mundo para amar.

Não consigo fazer uma retrospectiva, supostamente aquela que deveria ter equacionado há algum tempo, mas faltaram-me as forças na Hora considerada pertinente. Eu quero dizer-te que, em vez de andar para trás no tempo, avancei sem pejo para te conceber fortalecida na arte de viver; porque de facto viver é um acto heróico nos dias de hoje e saber como fazê-lo assume contornos hercúleos. Enveredei por ver-te ir adiante dos meus olhos e dos meus sonhos, e qual batuta de maestro partida ao meio, deitei fora a parte que se me havia escapado, mas guardei a outra. Dir-te-ei que a ponteira ficou cravejada naquele adeus feito de pausa, de melodia sem voz, ouvindo-te dizer adeus, mas sem que uma palavra se escutasse.

Disseram-me as paredes do nosso mundo, que quando fechaste as portas do teu coração e foste embora, os teus bonecas gritaram por ti, as tuas fotografias expostas abanaram denotando a passagem do vento forte, e até os quadros que ornamentaram o teu espaço saíram do sítio para pedir-te que voltasses – um dia – mas que o fizesses de livre arbítrio e renovada. A boneca grande, aquela vestida de dama antiga disse ter estado quase a pedir-te que a levasses, mas assumiu ter medo do mundo lá de fora; medo que tu nunca tiveste e por isso partiste, buscando em cada pedra da calçada um nota da música da tua vida.

Só sei que te quero feliz, próspera e vencedora. Se para isso for preciso a minha solidão, não importa, ficarei à soleira da porta vencendo o passado e vivendo o «carpe diem» de Horácio. É uma certeza, esta de que se, se viver só o momento, não se sentirão tanto as saudades e as desilusões. Mas acredita não estou desiludida, estou tão só convencida de que, nisto tudo, a vencedora foste tu, porque pela primeira vez, partiste à conquista do teu sucesso sem pedires licença ao mundo, do qual nunca gostaste: nós, aqueles anfitriões que afinal, nunca souberam convidar-te para jantar com a dignidade merecida: à luz das velas.
Sê eternamente feliz!

EU !

 

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