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PALÁCIO DO FADO
Rendas, brocados, fatos espalhados, faianças quais
cantatas, que denunciam uma vida de saudades feita. Guitarras, jasmins, rosas,
medalhas, florins, retratos pintados, excelsos quadros. Tudo foi teu, tudo tem a
tua cor, a tua sede d’amor e o teu toque singelo.
Aquele xaile dobrado a cetim contou-me uma história ímpar, a tua. Disse-me que
aquando da tua adolescência sonhaste ser pássaro trepador, flauta, água
cristalina e palácio de sereias, porque quererias muito que as crianças e os
velhos do teu/nosso país vivessem contigo nesses sonhos pintados de mil tons,
que te assediavam diariamente.
Nunca quiseste a esmola, sempre refutaste a maledicência e, crente em Deus,
colocaste no teu Sacrário e à beira da tua cama um lindo JESUS onde, ainda hoje,
te revemos solicitando-lhe a concretização de sonhos mil. Adoraste muitos
espaços que estão ali, naquela que foi a tua alcova, falando em surdina com o
visitante, e numa análise de pormenor, percebemos com facilidade quais os
espaços universais que mais histórias te contaram e quais as pessoas que contigo
fizeram melopeia pela poesia das coisas e pelos ditos dos homens.
No teu quarto, cuja respiração ofegante é uma constante, naqueles que lá entram
mercê da saudade, vêem-se muitas imagens d’anjos e jasmins que adoraste e a quem
solicitaste paz nas horas de hecatombe. Rezaste, decerto, ao teu senhor
solicitando-lhe que aquele teu habitat fosse sacralizado e doado aos que nada
têm de seu.
Choraste por ti, por nós e por tantos que, quando percebeste que partias,
disseste aos teus amigos que quererias que as tuas paredes pintadas fossem
albergue constante do povo anónimo que sempre te amou e do qual tiveste essência
e existência num embalo fraterno qual laço de mil nós, apertado.
Hoje, a Rua de S. Bento... a tua rua tem a CASA MUSEU d’ AMÁLIA, o lar aberto
daqueles que te quiseram demais e que não aceitam que subiste ao alto do Monte.
Voaste, qual andorinha perdida, mas sentimos que todos os dias vens abrir a tua
porta de par a par, e fazer uma reverência enorme a quem entra para rever as
coisas que tiveste e não perdeste apesar da tua subida ao céu.
Estás feliz, finalmente, porque o dinheiro da entrada na tua terrena pousada ,
nos teus aposentos é receita para doentes, para gentes carente, para Homens que
querem um dia melhor do que o de ontem, e um futuro mais risonho que o de hoje.
Dorme, rainha do som divinal no teu arsenal de plenitude e beleza moral, porque
em Portugal – e onde há portugueses – ainda se canta o fado!
Que Deus te proteja..., descansa no leito para onde Portugal te levou,
honrando-te!
Para ti uma pétala de saudade e uma lágrima infinita de recordação!
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