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QUE MUNDO

Foi ontem que agarrei as mãos de meu pai, homem perfeito e novo. Beijei-as com tantas força que mereci como recompensa aquele abraço que ainda hoje sinto.

Lindas aquelas maçãs de rosto mescladas de tons vermelhos e tão denotativos de saúde, tranquilidade e habilidade de viver. Os olhos – que não esqueço – eram daquele azul que o céu tem, de quando em vez, quando a Primavera espreita o horizonte. No coração o pai possuía a vontade férrea de mudar o mundo, e por isso, o dinheiro que chegava mensalmente - devagar e a compasso - era entregue para que nada faltasse. De vizinhos a amigos e desconhecidos, todos se diziam felizes e ninguém afirmava ser vítima de um fado desgastado; o Zé doava tudo. Da manteiga ao pão tudo era emblema da doação que o pai fazia todos os meses.

Em casa nunca vi exclusivamente a família que era minha. À mesa chegávamos a estar mais de dez pessoas, falando de tudo e de nada, discutindo política, sociedade e futebol. Recordações que guardo dentro da alma, e que ninguém me rouba; porquanto as fechei já há algum tempo a sete chaves de porte hercúleo. Cheguei a dormitar em cima daquela mesa de abas largas da cozinha onde, depois do jantar e do repouso da louça, ficavam as memórias do dia e a contabilidade da vida. Todos diziam de si e aguardavam que o anfitrião mandasse buscar mais um garrafão de vinho tinto para colmatar a sede de uma ceia com seiva. Doces memórias de um passado tão recente – para a alma que tenho – e tão longínquo no Tempo que me circunda.

Agora olho para trás e quero ir buscar-me.

É verdade… fiquei durante muitos anos na casa que hoje já não existe a pendurar a dor e a saudade no fumeiro. Quando dei por mim, havia-me cansado de fisicamente ter saído do espaço familiar para outro, onde nunca consegui encontrar-me. Faltou-me o companheirismo de outrora, as vozes vindas de fora, o falar sincopado dos homens da terra e até os ditos injuriosos aos árbitros da altura, por o S.L.B. ter perdido em casa com o Sporting Clube de Portugal.

Tenho vontade de agarrar no bolor das paredes daquela casa cor-de-rosa, e fazer um livro onde consiga dizer que a sociedade mudou para pior, que o mundo hoje, já não conhece o conceito de partilha e de solidariedade, e se o faz, fá-lo a troco de qualquer favor, que se espera que chegue depressa e bem.

Num grito de desaire, quero murmurar que é tarde para voltar atrás, mas nunca foi tão premente que o fizesse. Se a irreversibilidade da vida não fosse uma constante, teria já caminhado rio abaixo – numa canoa improvisada – em busca da infância que deixei escondida no sobreiro fronteiriço ao ninho materno. Tenho muitas saudades das palavras que o pai trocava com todos sobre um qualquer problema, sim porque em nossa casa, tudo era discutido ao pormenor de modo a que ninguém sofresse qualquer ofensa. Não me lembro de ver o pai sair vencido de qualquer área. A verdade pautava toda a sua mensagem, e por isso, era escutado com deleite. As suas opiniões valiam uma fortuna de ideias concertadas a direito.
Hoje, tudo perdeu a cor. O mundo esqueceu o conceito de lar, família e estabilidade. Plantou-se um arsenal de ditos e de palavras vãs, ditas sempre que se quer, e quando se quer. Não se pensa em pedagogia do momento, em saúde mental e em companheirismo. Faz-se tão só aquilo que consideramos óptimo para o nosso próprio eu, e tudo o resto são ventos vindos de fora. O que é dos outros pouco importa, diz-se!

A guerra entra veloz pela nossa casa dentro sem pedir licença. A morte faz a mesma coisa, e chegámos já à banalização daquilo que é mais sagrado; porque falar das lágrimas de alguém e dos consequentes sentimentos, é falar de política quase, é saber quem chega primeiro à liderança dos E.U.A.

Tudo amareleceu com o Tempo.

As eras perderam o sentido, e aquilo que era clássico esbateu-se, com o passar das horas.
Agora ficou a insegurança! O pai – de que ninguém se lembra –, o amigo que morreu e que já passou à história, e até a minha vida que é tão parcial quanto eu quero que ela seja são tratados meus, que falo deles se me apetecer!

Se sou jovem vivo como quero e do modo que considero pertinente sem me preocupar se atrapalho o percurso da família. Tudo o que pretendo é vencer os meus limites, acabar a minha sina e dobrar o meu joelho à vontade que é minha, nem que para o efeito tenha que passar por cima de todos, inclusive das mãos bonitas do pai, que não tardarei a esquecer que foram, tantas vezes, generosas. Já nem dou por isso, tal é a ganância que tenho na aquisição de um mundo que quero exclusivamente vivo, para tão só para mim. A partilha e gestos de fraternidade, fazem agora parte de um passado que já não quero viver, porque aprendi com o mundo, que a hipocrisia e a teimosia, eram as bandeiras dos tempos modernos. Incrível espaço, onde hoje me movimento!

Deixem-me ir atrás buscar as faces lindas do pai que é meu, porque elas – dentro da minha alma vivem - jamais perderão a cor; mas as minhas estão pálidas, lívidas… nunca houve quem as considerasse com um bocadinho de pó de arroz…! Triste sina, a de um Homem do século XXI que vê nascer o sol, mas não consegue mover montanhas para o mostrar aos filhos que traz à vida!

Sejam felizes e levem as minhas mágoas na caixa da saudade para o Ontem!

Estou cansada, por isso, fico só nesta alcova de onde não saio, porque tenho medo do Homem!

 

 

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