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FAZ FRIO NA CIDADE 

( parte 3 de 3 )

Dali à prisão do pai e da mãe foi uma vertigem. Maldito tempo que passei em casa dos avós paternos que, indiferentes à prisão dos meus pais, continuavam a frequentar o célebre casino onde diziam ir buscar forças para aguentar com este problema de família. Não quis ir à escola e foi uma psicóloga que bastante me ajudou, porque durante mais de meio ano, fui diariamente com os meus irmãos às selas onde os pais aguardavam julgamento. Por vezes dizia-lhes que haviam errado e que afinal era falso, porque o dinheiro não comprava tudo. A mãe com meio sorriso pedia-me que ficasse calada, porque o julgamento ainda não havia saído e eu iria ver muitas coisas.

Nada vi… nada, afinal.

No dia do julgamento e depois de uma aula de psicologia do 12ºano fui informada pelo meu irmão mais velho que entretanto viera buscar-me à escola que, os meus pais haviam sido ambos condenados a 15 anos de prisão por atropelamento e fuga consequente, e que a indemnização orçava tanto dinheiro, que seria de todo impossível conseguir pagá-la sem atropelarmos a vida, uma vez que havia muito tempo que os pais estavam presos e o dinheiro ia, dia após dia escurecendo, desmaiando nos cofres dos bancos onde o pai o colocara.

Por muito pouco que entendesse, consegui perceber que o meu pai imputara a deliberação da fuga à mãe, dizendo-a bêbada por sistema. A mãe convencera todos, que o pai sempre sofrera de abolia, razão pela qual era dependente de estupefacientes para viver. O tribunal deliberou e estava feita a nossa vida: os avós dizendo acusar uma idade que só lhes permitia viver algum tempo, pouco acrescentavam, senão que já éramos crescidos e teríamos que abrir caminhos por nossas mãos. Assim foi, pagámos o que não é pagável – a célebre imunidade da morte precoce dos dois jovens – e o que nos sobejou foi a matrícula feita nas respectivas faculdades e a casa penhorada.

Por decreto do Tomás, o nosso irmão mais velho, nós iríamos procurar emprego, desta feita a sós, porquanto os galões de família haviam caído no charco. Assim fizemos, e hoje envergonhadamente – dizia Lúcia, pensativa – cada um de nós trabalha para comer, e se nos reunimos fazemo-lo numa pastelaria de 15 em 15 dias para beber uma café e para acertarmos coisas das doenças dos avós, que jazem em casas de repouso que nos exigem os bens que eles possuem, todos os meses. Já morremos para a vida da D. Genoveva, e por isso, há pouco quando todos a acariciavam, eu estalava de dor por dentro, e tentava reduzir aquela senhora a zero, dizendo à minha alma que mulheres alegrete sobram neste país doente, porque são pessoas como estas, que maltratam muitas vezes a sociedade e o meio, e fazem dos filhos que possuem gente condenada, gente doente e até dependentes de tudo, à minha imagem.

Quando a jovem acabou o seu relato ninguém estava indiferente. Dentro do estabelecimento todos estavam estupefactos e alguns rostos crispados olhavam para aquela jovem como se vissem uma coisa rara. Lúcia disse: eu sou uma Menezes de Mello, mas aqui sou só a Lúcia, porque os Menezes jazem nas prisões e os Mellos acabam os dias contando o dinheiro que já tiveram. Sejam felizes trabalhando, e fazendo o bem aos outros, porque eu sou uma literal vítima do socialmente correcto que vira incorrecção.

Esta história singular mostra a todos que existe no mundo muitas Lúcias que são vítimas dos erros dos adultos que, não olhando a meios, querem atingir os fins. Mas estamos certos de que mais um ano vai surgir, todavia é preciso que saibamos que, queremos ser pessoas sóbrias - construídas moralmente - à altura de uma conduta digna de registo, porque o melhor do mundo é um Homem conseguir adormecer sem mexer no travesseiro.

Sejam felizes, e guardem esta mensagem como espelho da sociedade que se tem. «««

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