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FAZ FRIO NA CIDADE

( parte 2 de 3 )

Foi há 6 anos nesta altura, que perdi tudo na vida. Julgam todos que sou uma mulher feliz, porque me visto em condições e até frequento à noite a faculdade; todavia só eu sei o que é viver e nas condições que eu vivo. Hoje sou capaz de dizer o que quero e o que penso. Acreditem que jamais falarei, mas porque me olham como se fosse um diamante sem uso, quero que saibam – pelo menos tu – para puderes dizer aos demais, que esta mulher que está à tua frente não tem família. Tinha… é verdade tinha, mas foram-se todos embora e deixaram-me para aqui moribunda da existência que levo. Estou farta de ser forte, agora quero que todos saibam que foi há algum tempo e numa noite igual a esta que depois de estarmos a regressar da ribalta, o meu pai que conduzia um veículo parecido com o da D. Genoveva, perdeu o controlo da viatura e foi embater num grupo de quatro jovens, que felizes vinham de um baile de província para casa, depois de haverem comemorado mais um ano de vida. Atropelados pelo pai, dois morreram no instante, mas como os riscos se julgam impunes a qualquer coima, o papá parou, certificou-se da ocorrência, e percebendo que havia gente feria correu vertiginosamente em direcção do hotel onde havíamos pernoitado. Tudo o resto fomos sabendo pelos noticiários televisivos. Eu, criança que era, tremia de medo e era calada com estalos que ainda hoje sinto, porque o medo assolava a minha família. O pai bebera mais do que era possível para poder conduzir em condições, a mamã fizera o mesmo, mas pouco importava a situação dos dois. O dinheiro comprava até a vida daqueles aldeões – ouvi isto mais do que uma vez – por isso, só teríamos que esperar que o tempo passasse, e que o papá fizesse o telefonema para o nosso mecânico porque o carro denotava a atitude, isto é, sofrera uma forte amolgadela no lado superior esquerdo; pancada que ao ser descoberta, poria a vida da família em problemas - segundo o pai desnecessários.

Ninguém dormiu. Só eu porque a idade permitia, dormitei por algumas horas. Ao despertar vi o Zé, o nosso mecânico sentado num sofá à direita do de meu pai, e apercebi-me de que a situação piorara. O pai lamuriava bastante e pedia-lhe que tirasse dali o carro depressa, porque teríamos que sair ao meia dia, o mais tardar. O homem tentava que ele percebesse que era uma saída inoportuna, porque o mau estado do carro denotaria o seu autor, até porque a G.N.R e a P.S.P andavam por ali perto, e se vissem sair uma viatura assim, era perigoso. Casmurro como sempre, o pai adiantava que ninguém lhe poderia fazer o que quer que fosse, porque nadava em dinheiro. Aos ricos – dizia convicto – tudo é permitido. Acrescentava que não percebia muito bem a preocupação do Zé, quando conhecia o papá há tantos anos, e sabia que ele como médico era conhecido de todos; portanto por ter morto – sem querer – dois aldeões, não havia morrido a Primavera, por isso, forçava o mecânico a não o desautorizar, salientando que queria sair dali, daquele hotel rapidamente. Fá-lo-ia no Fiat do mecânico para não despoletar suspeitas e este levaria o carro. Apesar dos muitos protestos do homem, nada feito. O pai levou a melhor e, quando íamos a sair da porta da garagem fomos interceptados pela polícia. Dos bolsos, o pai tentou tirar muito dinheiro e cheques que, desta vez, não compraram a vida dos que extemporaneamente haviam dito adeus à vida. »»»

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