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FAZ FRIO NA CIDADE ( parte 1 de 3 )
Faz frio na cidade. É Dezembro e é noite de luz, glamour e esplendor. Neste estabelecimento da baixa, a entrada e a saída de senhoras finas, faz-se a todo o momento, porque ficou esquecida a compra do par de meias de ceda, e o gel para adocicar o penteado já tão retocado. Os lojistas com a simpatia que lhes é peculiar fazem perguntas, questões que se prendem com o onde, e o quanto custa a passagem de ano da doutora fulana de tal. Resposta que é dada sincopadamente para que não falte nada à informação. Convirá que aquela menina simpática que por detrás do balcão está sempre disposta a mostrar-lhes tudo, o que está para ser visto, saiba que a senhora desfruta de bastante dinheiro, que pode gastar a seu belo prazer, e não importa como nem onde. Nesta loja ficam todos os meses mais ou menos 500 euros, mas agora e aquando do luxo que se prende com a passagem de ano, D. Genoveva não pensa em contas. O que quer é que as amigas digam que está linda, que a indumentária é excelsa, e que ela aparenta menos 20 anos de idade. Feliz pede as meias, não regateia o preço, e apressa-se a sair desejando aos que ficam que o ano que vem seja óptimo para todos. Do lado de dentro, o comerciante corre na tentativa de conseguir dá à sua freguesa de luxo aquele beijo que os grandes consumistas merecem, mas já não vai a tempo. Ao longe o BMW da série 7 parte avenida abaixo, conduzido por um membro da família, que risonho tenta aconchegar a mulher que se aligeirou no banco de trás. No quente da loja as empregadas falam dela, daquela senhora caprichosamente bonita porque nada lhe falta. Tecem-lhe considerações sobre a altura, a gordura, a silhueta de menina, e ainda há quem diga que já fizera algumas plásticas, razão pela qual os quase 50 anos de idade ficam esquecidos ao canto da arca para lhe serem ditados somente 40 e alguns, mas poucos. Enquanto estas conversas sobre passagem de anos tomava todos os trabalhadores, Lúcia, uma jovem de 25 anos parecia indiferente a tudo. Olhava para o vaivém sem se contorcer e sem proferir uma única palavra. A determinada altura, uma colega consternada pela sua imobilidade, perguntou-lhe se estaria doente ou aborrecida por qualquer coisa; mas a resposta não veio. O patrão olhou-a crítico, e disse que o mal de muitas era a inveja. Acrescentou que o que movia o mau estar da empregada era não poder sentar-se naquele estofe de pele do carro da sua cliente. Falou até quase enrouquecer, na tentativa de passar uma informação: quem inveja o que é dos outros, cedo tem o seu desfecho. Apesar de tanta moral espalhada, Lúcia continuava como se nada tivesse acontecido nem ouvido. De quando em vez, perdia um pouco a cor que lhe abrilhantava a tez de mulher bonita, de pele ebúrnea e de cabelos de um ouro aguçado, e olhando para o amontoado de roupa que requeria uma permanência nas respectivas prateleiras, dizia de si para si, que se soubessem bem a sua vida não perderiam tempo com donas Genovevas. Uma colega que à sua imagem carregava quilos de lã para cima de um escadote, perguntou-lhe o porquê daquele vociferar sistemático e teve como resposta um conto de embriagada dor: »»»
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