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QUANDO O FRIO SE CHAMA FALTA D’AMOR

( parte 1 de 3 )

    Era Novembro e o frio regelava lá fora. Dentro da sala de aula o ambiente parecia de empatia com todos aqueles que, colados ao papel tentavam dissecar algumas palavras sobre um dia passado em família e longe do contexto escolar. O Jorge parecia indiferente a tudo e alienado que estava, dispersava o seu sorriso para a esquerda e para a direita até que, a determinada altura, alcançou o meu olhar inquieto e num gesto gentil responde sem que lhe pergunte o que quer que seja «Stora, não consigo fazer o trabalho, porque gosto muito de si e a história que tenho para lhe contar é triste...!».

    Vi muitas lágrimas nos olhos daquela criança que buscava a minha compreensão, e estática permaneci até que fui capaz de fazer uma retrospectiva e recordei o primeiro contacto com aquele menino. Eram mais ou menos 10 horas de um dia 12 de Setembro, quando na sala 7 me foi entregue pela mão de uma delicada e gentil senhora aquele rebento lindo e aparentemente bem amado. Recordei que – à saída da mãe a criança mantivera a sua postura de menino normal, isto é, ouviu-me enquanto directora de turma do 7º ano, turma A e no final depois de muita conversa plena de avisos, sugestões e informações viu-o sair gracejando com outro menino que percebi ter vindo do mesmo colégio onde fizeram o 1º ciclo de escolaridade. Fui andando no tempo – voando pelos meus pensamentos -  até que recordei que desde há algum tempo o Jorge viera a solicitar uma atenção especial, pedia-me muito que dissesse se gostava dele, se ele era bom aluno e bom menino. A tudo respondi sempre que sim, quase convicta de que todos aqueles pedidos não eram senão, ecos surdos de uma criança que sem ser carente, e por um motivo qualquer, que eu desconhecia requeria ser panegiricada e mimada em substância. Mas conforme tudo isto veio em jacto à minha memória também outro forte dado enlaçou a minha mente de mãe. Naquele momento o Jorge chorava um doce pranto que não se ouvia e nos seus lábios de cereja via-se um sorriso ténue que parecia dizer baixinho «... eu preciso de ti, vem aqui...».

    Praticamente alienada do resto da turma que entretanto dava o seu melhor ( trabalhando na composição do texto sobre a família ) sai da secretária e fui – qual cavaleiro sem norte – até perto daquela criança esquecida de si mesma. Alimentei-lhe a alma dizendo-lhe por entre sorrisos que naquele dia ele estava muito bonito e, que aquela camisola azul lhe ficava muito bem, pois reflectia o seu olhar do mesmo tom. Enquanto ouvia tais palavras, o Jorge sofria de sobremaneira e pediu-me que lhe facultasse a hipótese de ser detentora de um grande segredo. Disse-lhe que sim... que outra coisa não faria senão escutá-lo e deixar que aquelas queixas, supostas ou lamentos ficassem fechadas a sete chaves, pois uma professora é, indubitavelmente, uma mãe e outro não é o seu dever, senão ensinar a crescer dentro de um elevado conceito de justiça, que passa pela lealdade e pela sinceridade.
Não sei se, eventualmente, o Jorge entendeu a frase que troquei com ele, todavia replicou que à saída daquela aula – e porque era hora do almoço – ficaria aguardando que lhe desse a mão e lhe escutasse tudo aquilo que fazia da sua vida um estrada sem contornos definidos. »»»

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