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EMBRULHO DESFEITO

( parte 1 de 2 )

Saudade incontrolada deste mar azul que deixo. Não quero partir! Não quero dizer adeus ao solo que é meu, ao espaço que me viu nascer. Olho o oceano e quero-o sempre a meu lado. Não consigo viver isolado deste canto que conheço, partilhado dias a fio com o rio de lágrimas, que cavo ao recordar a minha infância.

Foi aqui no alto deste Promontório que minha mãe, que Deus já levou, me baptizou, jurando que faria de mim um homem pleno de valores morais para espalhar e calcinar. Quero-te terra querida por tanta recordação, por tanta saudade que cimentas quando estou noutros domínios. Parti, há já muito tempo e sem pejo deixei-te... mas quando volto, estás sempre receptiva... sempre de lágrimas cantantes, de abraços feitos e frases bonitas para me embalar.

Quero-te canto do Sul, porque maugrado a distância, revejo-te na minha memória carregada de quilos d’ esperança de que algum dia me queiras receber no teu solo. Não quero terminar longe de ti... preciso do teu manto carregado de magia para adormecer no seio do eterno. Quando parto, o carro não desfila, porque o suor não deixa mercê da muita exasperação que sinto ao te dizer ADEUS. 

Amo-te rochedo perdido no meio do mar, enigma que em sonhos me obriga a delirar, lá longe. Oniricamente deixas de ser pedra e és cavalo de madeira que minha mãe me deu tinha eu sete anos. Foi comprado na feira de Novembro sem eu lhe ter solicitado. Recordo que chorei, alienado quando me sentei no selim de madeira daquele pónei que o artesão algarvio fizera. Minha velha mãe sentiu-me a mágoa e por 15$00 comprou-mo... uma fortuna, Senhor...!

Foi tudo há tanto tempo que quase esqueço que fui criança. Mãe, volta de novo, aqui... além do tempo... além dos Homens! De novo carrego baterias olhando-te, Mar, «espelho líquido onde o homem se vê movediço». Quero que vás comigo... pois não consigo, aos meus cinquenta anos viver sem te ter por perto. Quero inalar a tua seiva, quero vislumbrar o teu doce canto e escutar o teu encanto. Olho-te Carvoeiro... terra perdida, pequeno espaço onde todos outrora se conheciam e amavam ... hoje cresceste, mas maugrado as pernas altas que ostentas continuas a ser o meu jardim d’ infância. 

Rochas, praias, barcos, falésias, conchas, areias... saudades que cada dia que passa aumentam exasperadamente.
Do alto de Val de Côvo vejo a minha infância pautada pela nostalgia do tempo passado. Hoje o hotel lá plantado não me assusta, contrariamente dá peso ao meu tempo e à minha idade. Passaram mil horas sobre mim e sobre este espaço e com dificuldade, Val de Côvo me reconhece. 

Mas este reencontro dá-se de três em três anos, porque Buenos Aires é muito longe, por detrás do Adamastor, e é lá que estão sedeados os meus filhos e o dever chama-me. Quanto me tem custado uma harmonia económica...! Não consigo dissecar o palco da saudade que, a necessidade da escola, do trabalho e da vida suave me tem debitado. 

Quero levar comigo, o Algar-Seco no bolso do meu casaco para recordar a primeira namorada que tive e as juras d’ amor que ali fiz. Eu era, então, um rapaz cheio de ilusões, calças de terilene, blusa de algodão, mas com um amontoado d’ aventuras que queria realizar. Amei ali naquele canto excelso onde o mar e a magia testemunham bem estar e equilíbrio. De momento grito em surdina e peço que permitam que leve comigo Val de Centeanes, porque foi lá que tomei o meu primeiro banho de mar, foi lá que o meu pai espantou os demónios que me carregavam num último Domingo de Agosto na festa da Nossa Senhora da Encarnação. 

Quero levar comigo a praia, o sol e o mar, que mais não são, senão apanágio da infância que era minha. Olhando o Farol de Alfanzina recordo as viagens oníricas que fiz, as vezes que solicitei a meu pai a frequência da marinha de Guerra, porque queria galgar este mar, que amo delirante, como comandante de um qualquer navio. »»»

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