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DESUMANIZAÇÃO
 

É noite. No céu um amontoado de estrelas dizem da tua vida e da mina. Conhecem a solidão que nos envolve, e ficam estáticas, perante tamanha atrocidade. Vejo-as sonolentas pela singeleza com que o Homem trata este assunto que nos arrasta para a perda.

Pressinto que na Via Láctea o diálogo já foi encetado. Perguntam umas às outras porque é que os humanos são tão complicados; porque é que a diferença social terá que ser tão fortemente labiríntica. Colocam questões sobre o comando deste universo e sobre a sua regência. Quem são afinal, os legítimos defensores dos ideais deste país e do mundo? Que faculdades lhes deram rios de saber para administrar o suor de todos com leveza e leviandade?!

Fico por detrás da cortina.

Prefiro remeter-me ao silêncio a ter de expressar qualquer opinião.

Só sei dizer-te amigo, que perdi a noção do tempo e do espaço. Dir-te-ei que estou condenado a viver do passado, sempre sentado naquele torneio mecânico, onde desde a adolescência produzi. É verdade, foram muitos os anos de entrega a uma máquina. Mas era excelente o percurso que diariamente fazia de casa para a fábrica. Lá fiz tantos amigos, que quereria correr e ir buscá-los a todos. Se fosse possível estarmos sentados – lado a lado, numa eira enorme à imagem do universo – talvez não se sofresse bastante. Assim, cada qual fala do meu mal a quem chega, dorme aninhado no leito da sua nostalgia, porque falta o assobio diário, aquela cantoria quase frenética na ausência do superintendente, e até já não se diz que o S.L.B. está perdido e que os dragões estão indiscutivelmente melhores.

Eu quero ir ao passado buscar os meus tempos de operário!

Deixem-me voltar a abrir a fábrica, que por respeito, quase a chamava de minha. Deixem que eu vá depressa até junto das máquinas, porque cansadas de estar no marasmo – de noite vêm ter comigo murmurando!

Eu quero ver aquela porta aberta, os camiões nas cargas e nas descargas, as mulheres lidando, de um lado para o outro, de lenço descaído, de voz cambiante… eu quero tudo isto para poder continuar a viver!

Digam-me, senhores doutores, do que me valeram os 30 000 Euros de indemnização, quando a minha vida se perdeu no momento em que entreguei o cheque no banco. É verdade ali, pareci, de tal sorte, que nem queria acreditar que a minha vida havia tido um preço tão diminuto.

30 000 Euros foi o preço de uma vida linda, passada a correr por entre lâmpadas eléctricas, tornos mecânicos, linhas de montagem e matéria-prima transformada! Tão pouco Pai do Céu…! Só valho mesmo, aquilo que o meu passado contabiliza nesta fraca memória, porque o dinheiro, esse foi-se com o casamento da minha filha Inês e do meu Pedro, o mais novo. Foi-se tudo! Até a idade já está desfeita, porque quando me olho ao espelho já não me conheço.

Mundo, escuta a minha prece: diz aos governantes deste país que não podem nem devem tirar o salário ao operário, porque se o fizerem não lhe tiram a capacidade de subsistir, mas a vontade de viver!

Abram depressa, as portas da fábrica que me criou, quando não prefiro dizer adeus ao mundo e partir. Sabem porquê: porque se os senhores não sabem descolar-se sem um automóvel, eu não sei deslocar-me sem ser para aquele carreiro que ia dar à fábrica.

Acreditem que até a minha Maria, mulher que nunca foi à escola, quando me vê triste e isolado diz no seu português beirão: homem, vai à Junta porque o senhor presidente é bom, veio cá a casa quando foi dos votos levar-nos o folar, e por isso, ele dará um jeito da fábrica abrir. Faz isso e verás que tudo será como era dantes!

Pobre de quem é inocente, penso! Eu tenho pouca escola, mas a que está no cimo da minha alma é a suficiente para perceber que a vida é uma MERDA!

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