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O TEU DECLÍNIO
 O CONTO QUE EU NUNCA CONTEI

( parte 1 de 3 )

   «Mamã, vem depressa... estou à tua espera!».

Ouvi isto hoje pela manhã. Julguei que sonhava mais uma vez, mas em estado de perfeita alienação, constatei que era de facto, a prece do meu menino. Louca corri até ao seu quarto, ajeitei-lhe a fotografia, compus-lhe a cama há anos feita e – em corrida vertiginosa vim até ao computador – falar ao meu Jesus, ao mundo e ao Homem! Escrevi assim: O declínio é uma constante do Homem, mas foi de todo angustiante ver-te tombar sincopado antes daquele fim sepulcral e daquela partida para o mundo dos ecos surdos.

Era Fevereiro, o tempo estava verdadeiramente frio, e tu sofrias à exaustão! Perguntei-te mil vezes se tinhas dores, se querias que te protegesse mais, ou se aceitarias que desse a vida por ti, mas a resposta era só, aquele teu sorriso lindo, tão meu, que me partia todo o ser dilacerando-me a alma de mãe. Quantas vezes beijando-te em êxtase, pensei que partiria contigo, porque vegetar todo o tempo ( mercê da tua ausência ) era de todo hecatombico, todavia, nada é como se pensa ou como se quer, porquanto quando te senti regelar nos meus braços, e constatei que havias partido com o meu dedo anelar guardado – com força – por entre os teus, jurei ao Mundo que vingaria a tua vida, que faria de tudo – enquanto existisse – para dizer que o Estado tem que apostar seriamente na saúde, porque não há dinheiro algum no mundo que consiga colmatar a dor da perda de uma filho.

Recordo perfeitamente...essa noite, triste de um manto indefinido! Exclusivamente eu vislumbrava que o teu SER estava prestes a trepar rio acima, porque contrariamente à tua postura diária, havias caído de sobremaneira, e já nem reagias, quando o TOBIAS, o velho cão da nossa casa ( tão teu amigo ) te vinha saudar. Sei que decerto nem sentiste os suspiros que o teu fiel amigo deu, quando se sentiu refutado, e que nem percebeste que ele, num último e cordial cumprimento, tinha metido a cauda por entre as patas e se fora embora, num silêncio absoluto, mas não sem que, te tivesse primeiro cheirado como costumava e lambido a ponta dos teus dedos pequeninos.

Que lindo quadro filho... aguarela que eu nunca conseguirei esquecer. Só eu e ele percebíamos que estavas mais perto dos Céus do que dos homens, e por isso éramos os únicos que de certa maneira, tremíamos exasperadamente, porquanto para os restantes ( inclusive para a família ) tu estavas naquele dia como em tantos outros... tão só muito doente! Mas era falso, porque eu desde aquela madrugada senti que o teu peso era leve demais, parecias qual pena perdida nos meus braços fortes de mãe, e convulsivamente senti que as tuas faces, normalmente carregadas de cor, mercê da febre, agora estavam nívias, lindas como outrora... ! »»»

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