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A TUA MORTE É A MINHA HISTÓRIA
( parte 1 de 3 )
Recordo-te, menino a sair da nossa casa.
Passaram - se anos e só te fui vendo de quando em vez. Perdi os meus sonhos à
força de tanta oração e esqueci que existia para rezar, exclusivamente, por ti.
Fiquei de luto durante duas décadas, porque foste embora e a única culpada desta
ausência fui eu, eu a tua mãe, Feliciana esta mulher que hoje está mudamente a
carpir o desgosto de te ter perdido tão novo ainda.
Diz-me o que será dos teus filhos, isto é, dos meus netos?!
Diz-me onde estás agora, sim agora que já foste para longe do
mundo, para outros espaços que eu – por muito que infira - ainda não conheço?!
Quero que me digas, filho... que eu não fui culpada da tua
partida extemporânea para essa África que te matou. Recordas - te enviuvei muito
cedo, e tu eras um dos cinco filhos que tive. Mas depois da partida do teu pai,
a escola ficou para trás, a comida era parca, o vestuário estava desfeito e a
única chance de vos ver sorrir sem passarem necessidades, foi – naquele dia de 1
de Fevereiro – ter-te mandado com os teus dois irmãos mais velhos para a África
do Sul. Vou contar-te a nossa história para que melhor compreendas a minha
resolução:
Os Ramos e os Palmeira tinham saído de Ponta Delgada havia mais
de uma década e sempre que vinham mostravam índices de riqueza. Durante os
serões de Verão contavam histórias lindas sobre o país que habitava. Diziam que
lá havia sempre trabalho para todos, que tudo era lindo e que ninguém passava
fome desde que gostasse de trabalhar.
Contavam inclusive que o Estado obrigava as crianças – mesmo
estrangeiras – a irem à escola, porque era contra o trabalho infantil. Diziam a
todo o momento, que apesar da vida lá ser muito cara, nada se comparava com
Portugal, porque se vivia muito melhor, ganhando bastante. Eu soube que ao fim
de dois anos, cada um destes casais já tinha a sua casa montada de tudo o que
era bom, e segundo as esposas, nem faltavam os cristais, as porcelanas e até os
bonitos cortinados.. »»»
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