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CRIANÇA SEM MUNDO

( parte 1 de 2 )

       Olhos penetrantes e ecos surdos escondidos na zona mais recôndita da alma. Vejo o teu olhar assustado... constato as muitas lágrimas que vertes e pergunto aos céus, quando acabará o teu sofrimento?!

Pobre menino, esquecido de que o Mundo é lindo... esquecido de que existem brinquedos excelsos, mães despreocupadas, belas escolas, quartos estucados e de papéis pintados... pobres crianças esquecidas de que o Mundo é mãe carinhosa, fada multicolor, cascata de água cristalina, e embalo de alegrias consecutivas. Olho-te com atenção de pormenor e constato que te agarras sereno, à saia da tua mãe para não te perderes na vida... vejo que estás indiferente a todo o material bélico que está ali – perfeitamente ao teu alcanço - , e pensas talvez, que amanhã brincarás com aquele carro de madeira velha que o teu avó fez no início do mês de Setembro.

Olhas extasiado o brinquedo e sonhas que amanhã colocarás em cima dele, aqueles pedras grossas e aquele machado para ires ter com aquele teu amigo, no alto daquele abrigo, e encetarem, conjuntamente, a feitura de um abrigo que vos preserve das emboscadas. Queres brincar despreocupadamente, mas os malabarismos que encetas não são de ti, nem para ti... isso dos ABRIGOS são coisas dos homens, «entretenimentos» dos adultos e tu só és aquele menino Jesus, lindo, justo e pleno de viva para ser vivida e explorada com êxtase e com encanto. Não queiras crescer extemporaneamente... pede aos céus – numa qualquer oração – que te faça crescer sem atropelos, que evite que ideais disfóricos assumem proporções do domínio do incrível... solicita do teu Jesus que te guarde e que te recolha numa flor linda, atrás de um roseiral qualquer, para que os homens não possam tocar-te mercê da sua maldade e gosto de liderança.

Diz ao teu Deus com as palavras que são as tuas, que queres viver como tantos outros meninos, que queres ter pais, mães e avós e que queres, ainda, ter pão, escola, roupa quente e sopa mesmo que esquentada, para sobreviver neste mundo dos «ecos surdos». Criança revejo-te, sempre – e constato que dia após dia, habitas o abismo, comungas da indiferença dos grandes, daqueles que aprendeste a divinizar, isolas-te de tudo e de todos, tens medo da escola, daquele vizinho de pele suja, daquele cão que pára espantado à tua porta.

Sabes, aceito a tua postura, porque – apesar da tua parca idade – constatas que, não tens nada, que vives perdido de todos e que, só és daquele alguém que te trouxe ao mundo, mas que, agora, nada pode fazer para te proteger. Ela abraça-te de tal sorte, que quase faz pensar que vais partir depressa, mas estou convicta que nos céus, os deuses unidos, não permitirão tal agonia. Ela viverá para te ver crescer! Não te preocupes filho, ela investe por ti, ela recolhe-te naquele seio esbatido de dor, mas pronto a regatear-te a todos e a tudo... ela ama-te querido... tem fé e força, porque os homens vão entender e o mundo não tardará a «PARAR PARA PENSAR»!

Gosto tanto de ti... menino/menina deste universo perdido entre mísseis e guerras, entre hecatombes e terrores – e tal como tu – já tenho medo da ganância desmedida, da vontade incontida... da retaliação atroz e da expiação inocente! Tenho medo dos desmandos dos homens e do clímax de toda uma situação que percorre o nosso olhar assustado... ouve-se Morte... vê-se Morte, mas com letra maiúscula todos os dias ao nosso lado, tão demente e feia.

Que medonha verdade calcinada de mil dores, de milhentas saudades e de garras de mudar tudo, de mudar os sistemas, os pensamentos, as atitudes e as vicissitudes humanas. »»»

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