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CRIANÇA
 

Criança, viveste para quê?!

Andaste tanto tempo pisando a solo as pedras da calçada, que quase perdeste o sentido da tua existência. Fugiste por Lisboa acima, muitas vezes escondendo a fome que te dilacerava as vísceras e acabrunhada, nunca disseste possuir uma pobreza insólita. Tiveste vergonha do teu estado de sordidez económica e galgaste Mundo, em trenós de ideias, em busca do El-Dourado.

Comeste rios de coisas furtadas, bebeste o leite que o rio te «oferecia» de mansinho, e foste capaz para sobreviver, de te meteres no seio do Homem, que cobarde te levou além do possível. A tua alma gritou de dor, magoada, mas ninguém te escutou, porque tinhas aquela fome negra e aquele sentimento de solidão a carpir dentro de ti. Não sabias, portanto, se certo ou errado, mas andavas pelas ruelas e vielas da cidade mãe em busca do pão de cada dia, em busca da seiva da vida. Triste de ti, pobre menino «pardal de telhado» escondido do mundo que é teu!, mas que funciona como o seio de tanta náusea. Fugiste de ti, matando a tua existência, e escondeste o teu rosto roto, atrás daqueles tostões dados por te teres entregues.

Quanta lamúria fomos todos capazes de escutar, - quando sem chorares - , a tua alma gritava que estava errado o que o Homem te obrigava a fazer. Teceste mil lençóis de linho aos Senhores da Nação, fizeste com o teu corpo as delícias maquiavélicas de tanta gente encoberta que apetece - por ti - gritar tal como o fez um dia Fernando Pessoa: «É a HORA!»

Para ti escrevo, convicta de que o rio que deixo no papel é o grito de revolta plural que Portugal sente, neste momento.

Contigo me solidarizo, na esperança de que num amanhã que se avizinha, não existam mais meninos que, para colmatar a fome e o frio, tenham de se socorrer do Homem do Mundo. És gente e como tal serás tratado daqui para a frente. Porque se o assassino é preso, aquele que violou a tua alma pura e doce terá, minimamente que ser condenado à expiação eterna. Amo-te criança, e até que tenha forças gritarei que te adoro, e que te arredarei desse Homem cruel, que sem pejo diz que és seu!

 

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