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outras páginas [1] [2] [3] [4] [5] UM CONTO DE NATAL ( parte 5 de 5 ) Manuel achou aquele espaço digno de príncipes e nunca dele… e a todo o
momento esperou ser posto na rua, mas enquanto estava colado ao almirante nada
lhe aconteceu; todavia mal o senhor deu costas para assinar uns papéis que lhe
foram mostrados, Manuel foi suspenso pelas orelhas e mais veloz que o vento, foi
atirado para a rua como se de um cão rafeiro se tratasse. Desta vez doeu a
valer. Manuel fez mesmo uma ferida na orelha e por isso desvairado gritou do
lado de fora … rasgaram-me a orelha, já vão ver o que vos acontece, quando o
senhor almirante perceber que estou cheio de sangue. Vão comer tanta porrada que
vai ser um fartote, esperem para ver. Mas os sonhos de algumas crianças são os homens que os desfazem. Manuel ficou muito doente, teve febre durante a noite e quando pela madrugada o carro da Câmara foi levantar o contentor para o despejar encontrou-o gelado e exposto à má sorte. A cidade dormia quieta. Até nas prisões os homens maus tinham um soninho fofo
e quente. Aquela criança de ninguém, que nunca ousara entrar num espaço tão
fino, mas que por força das circunstâncias fora por si palmilhado, viu-se a
braços com a vida e com a vontade dos homens, porquanto a ferida da orelha fora
profunda. O seu estado era o de um menino franzino e o petiz acabou por não
aguentar a dor, caiu num delírio surdo. A ambulância chegou cedo, fora um dos
homens da Câmara que a chamara, Manuel estava a ser depositado na maca e ouviu o
homem do hotel que vociferava grave: esta gente está toda doida. Vão levar
aquele puto para onde? Para o hospital? Mais valia deixarem-no morrer ali,
porque era menos um a fazer porcaria pela cidade. Não tardaria que ficasse
crescido e seria um vagabundo a roubar tudo e todos e a vomitar nas sarjetas,
enchendo as ruas de limão, agulhas e restos de droga… que chatice dizia! Ninguém soube mais deste Manuel, menino com nome português. Dois dias volvidos eu vi num jornal diário esta notícia: Faleceu com apenas 6 meses uma criança de rua. Chamava-se Manuel Sereno, mas morreu inquieto gritando por um guitarra que quis ter, mas que o mundo não lhe ofertou. Decretou o hospital que o seu corpo seria entregue à faculdade de medicina para estudo de problemas variados. O Manuel era uma criança sem dote, mas que deixou milhões ao mundo: as suas entranhas para estudos e para avanços de tecnologia médica. Pobre menino que quis um dia uma guitarra – gritou por ela todo o tempo que esteve em coma -, mas partiu sem nunca a haver dedilhado. A esta hora está nos braços de Jesus – e quer o Homem queira quer não – tem uma harpa de ouro na mão, porque essa é a vontade do Soberano. Aquilo que o Homem joga fora Deus recolhe. O texto estava assinado por um poeta que ficou no anonimato…. E dizia tão só, EU, aquele que sabe brincar com as palavras ofereço neste Natal aos meus irmãos um conto para reflexão; porque uma criança que queria fazer música e que foi roubada ao mundo, teve música no céu a recebe-la. Afinal, em véspera de Natal, o mundo ofereceu ao céu… um menino que era de Deus. Obrigada pai! ««« outras páginas [1] [2] [3] [4] [5]
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