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UM CONTO DE NATAL 

( parte 4 de 5 )

Acabada a retrospectiva e chegado de novo ao presente, o Manuel deu conta da sua alegria. Iria decerto ter a guitarra! Aquele senhor vestido de azul e vindo naquele blindado estava a ser tão seu amigo que, ele iria finalmente ser feliz, porque a guitarra, a tal, iria ser sua decerto!

O marinheiro simpático e de tez lívida tomou-o pela mão e depois de questionar muitas pessoas sobre a cidade de Lisboa, encaminhou-se com o menino para a avenida da Liberdade. Foram todo o percurso a tentar manter o diálogo sem conseguir, comunicando exclusivamente por gestos; situação que os fazia rir.
Manuel apontava para o céu...tentava que o marinheiro dissesse, que Lisboa estava muito bonita e vestida de luzes para o Natal, mas o almirante não entendia muito bem a mensagem e dizia-lhe numa espécie de português e castelhano: fica descansado, deixa de olhar para o céu, porque eu sou homem do mar, conheço a pluviosidade e, estou certo que hoje não chove. Vais ver, dizia, que conseguimos chegar ao hotel sem nos molharmos, mas se começar a chover também se entra numa loja para comprar um guarda-chuva. Manuel não entendia de todo o que era dito. Ficou pasmado quando o almirante o encaminhou para dentro de uma loja para a célebre compra do guarda-chuva. Triste como a noite, gritou que saíssem dali porque não era naquela loja que estava o que ele queria. Aquilo era uma casa de roupa e ele, não queria vestimentas, queria tão só a tal guitarra. A algazarra foi tão grande que um dos lojistas que dominava bem o inglês, se viu na obrigação de contar ao Manuel a história que a criança estava a viver: o marinheiro entrara ali, dizia-lhe com ternura, para comprar um guarda-chuva, porque ele se mostrara preocupado com o tempo.
A criança ouviu a mensagem e triste, pensou: vim sempre a olhar para o alto. O almirante não percebeu que eu queria mostrar-lhe a decoração, e por isso, entendeu que a preocupação era um guarda-chuva! Um empregado da casa, dizia ao Manuel que ele era um sortudo; que qualquer dia, iria num pássaro muito grande até Inglaterra onde se faria um homem culto, porque aquele senhor o queria adoptar por o achar parecido com o filho. O homem tem dinheiro e vai dar-te uma boa vida, miúdo, dizia-lhe um empregado gordo da dita loja.
Manuel quase não escutava o que o homem dizia. Não queria ser filho de ninguém. Era menino de rua e se era de alguém sê-lo-ia de Lisboa, das suas gentes, e faria eternamente parte primeira dos ossos desta cidade que o vira nascer. Soubera que fora deixado à porta da Casa do Gaiato supostamente pela senhora sua mãe, que por o ter achado feio, ou por ter considerado que ele seria um fardo pesado para a vida, o entregara ao acaso, por isso viveria para lhe honrar o gesto: ser do sol e do mar e viver sem mãe, sem família, sem ninguém por perto. Muitas vezes pensava que o ser órfão era bom; porque enquanto outras crianças choravam quando os pais saíam, ele não tinha esse problema. Não conhecia ninguém, não sabia o que era a saudade ou a despedida. Na sua óptica era excelente ser livre como dizia a todos os perdidos da Rua Augusta que o afagavam diariamente.

Saídos da loja e já com a conversa contextualizada, ambos se encaminharam para o Hotel Avenida Palace. »»»

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