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UM CONTO DE NATAL

( parte 3 de 5 )

Manuel – enquanto tentava que o inglês percebesse o seu pedido - recordava ter tido nas mãos, um livro lindo com ilustrações, que a Esmeralda lhe dera. O livro era lindo e falava da vida daquele Jesus que ele não conhecia, mas do qual a mulher tanto falava…! Era bonito o livro, e eram lindos os contos que a Esmeralda lhe lia. Eram histórias de fazer chorar. Manuel recordava um episódio que o fizera tremer bastante: Jesus era tão bom que, para que os homens tivessem vida, se havia deixado matar, sem nunca haver dito que era o filho de Deus! O Manuel pensava que, se tivesse sido Jesus, teria gritado bem alto que era um senhor, e que tinha nas mãos a força toda para derrubar tudo e modificar todos, mas segundo a Esmeralda, Jesus era tão bom que se deixara matar sem que uma única lágrima ou gemido ecoasse… pobre Jesus, dia de si para si o Manuel!

O senhor rico não se decidia a entrar na loja – talvez não o entendesse, pensava o Manuel, talvez precisasse de um intérprete – e, enquanto o homem falava com ele, e lhe estendia duas filhós que havia comprado, o petiz continuava a fazer a sua retrospectiva e a recordar que, um dia depois de haver escutado a Esmeralda, chegou a pensar em seguir os passos daquele homem que havia passado pela terra para dar ao Homem a salvação, e por isso, havia decidido seguir-lhe os passos: fora até à Calçada do Combro ajudar todos os idosos a descer a rua sem escorregar e recebeu, naquele dia, muitos e gratos sorrisos… foi lindo, pensava! Dias depois estava esquecido de tudo, porque a fome apertara e embora soubesse – pela Esmeralda – que não poderia roubar… fê-lo. A vontade de engolir qualquer coisa que não fosse chuva ou vento estava a matá-lo. Lá fora ele corria em demanda do seu mundo secreto, das ruas suas madrinhas e das avenidas suas madrastas. Dormia nas esquinas dentro de uma espécie de contentores, quando o frio apertava. Corria para um prédio do Rossio, casa quase abandonada, e encostado a um bêbado ou a um drogado adormecia na paz dos anjos, porque apesar de doentes, aqueles homens sabiam respeitar as crianças que como ele, não tinham senão as calçadas como carpetes. Tapavam-no com uma manta que haviam roubado, e muitas vezes tiravam do próprio corpo aquele casaco velho, com o qual, o cobriam todo não fora – ao outro dia - acordar regelado!

Muitas vezes a Esmeralda pedira-lhe que fosse a sua casa dormir, mas ele renegara; todavia um dia de muita chuva e de vento copioso, ao pisar o patamar da entrada da casa daquela amiga, sentiu que a sua vida corria perigo, quando o João, o filho mais velho da Esmeralda, o mandara rápido para a rua, impedindo-o com um choco, de entrar. Dizia a alta voz que ele parecia um cão sarnento e que teria que ir – a bem ou a mal dali para fora - ! Este episódio jamais fora esquecido pelo Manuel que, apesar de continuar a estimar muito a sua Esmeralda, só lá ia quando a sabia a sós, e mesmo assim, era preciso que estivesse e estalar de fome ou de frio; quando não, preferia ficar a aquecer-se junto do homem das castanhas, no seio das tascas quentes pela presença dos alcoólicos ou num qualquer velório aninhado junto das muitas pessoas que supostamente o julgariam da família do morto e o deixariam permanecer ali – durante a noite – na quietude do espaço e no quente dos humanos apinhados.

Manuel recordara, enquanto caminhava por Lisboa de mãos dadas com o senhor almirante, que a noite que melhor dormira fora uma noite de frio em pleno Dezembro, quando depois de tentar roubar a carteira a uma anciã a polícia o puxara para dentro de um automóvel e o levara para a esquadra. Ficara doído mercê das muitas bofetadas que apanhou, mas as dores foram rapidamente esquecidas, porque fora levado para uma espécie de sela onde até televisão existia, e dormiu toda a noite quieto e aconchegado como um lorde. Ao outro dia, quando o guarda o foi acordar do sono, ficou impertinente, porque a sua vontade era dormir mais e mais; mas o homem bronco dizia-lhe a alta voz que se levantasse depressa e fosse embora, porque era um vadio e só na rua teria o abrigo que quereria. Quando a criança se dispôs a pedir-lhe que o deixasse preso levou tantas bofetadas que cambaleando, saiu da sela e quase em voo acabou na rua de onde partiu para o mundo, tão só e tão dorido. »»»

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