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UM CONTO DE NATAL

( parte 2 de 5 )

Agora, o Manuel entendia tudo, e até denotando ternura por aquele senhor tão importante, agarrou-lhe a mão, ao mesmo tempo que o marinheiro português descodificava toda a mensagem. Era assim: Sir. Brown dizia com fervor que faria dele um homem, um senhor com S maiúsculo, porque viera encontrar aqui, uma espécie de clone de Jimmy, o seu petiz, que estava lá longe… tão longe numa galáxia acima da nossa. Afinal era só uma criança! Manuel boquiaberto ouvia as palavras do marinheiro e quase assustado perguntava-lhe porque chorava tanto. A resposta não chegava. O almirante unicamente dizia ao menino de ninguém, que lhe ia dar uma casa, uma família e sobretudo muito amor, mas o Manuel não era dessas crianças que gostam de ter tecto, gente por perto e tantas normas para obedecer. Segundo ele, vivera para ser livre, para fazer das avenidas as suas passadeiras vermelhas, para fazer do céu o seu tecto, e se chovesse correria para debaixo de qualquer alpendre, porque mais valia estar a céu aberto, do que acorrentado no seio dos homens que discutem por nada, e que dizem coisas más uns aos outros, tão só porque querem ser melhores que ninguém. Por isso, o petiz pegou na mão do bom homem de galões e farda linda, e deslocou-o até à Praça da Figueira.
Lá estava a tal montra para delícia sua e dentro dela enfeitada com luzes de Natal e serpentinas dormia um soninho justo aquela guitarra que já lhe sorrira tantas vezes, linda de tons azul celeste, marchetada de pedrarias e de pedaços de raiz de nogueira… era tão bonita!
O Manuel estava certo de ser recompensado pelo mundo se conseguisse que alguém lhe desse o instrumento! Se aquele senhor fino lho comprasse… muitos seriam os turistas e até mesmo os alfacinhas que, ao escutarem as suas melodias, o prenderiam com cinquenta cêntimos ou com um euro. Ficaria rico não tardaria pensava, e então é que seriam elas, porque já poderia viver num quarto alugado numa das avenidas de Lisboa velha, e o frio excessivo do Inverno ir-se-ia embora, porque teria um bom colchão, lençóis quentes e até um cobertor para se proteger de gelo. Sorria, qual querubim à ideia de vir a ter aquela guitarra. Já falara disso ao cego Jeremias e este homem bom prometera-lhe ensinar a tocar. Aquela guitarra faria dele um homem crescido, sem necessidade de fugas consecutivas da bófia nem corridas constantes à frente dos comerciantes magoados a quem roubava tantas iguarias para poder subsistir.

A vontade do Manuel, naquele momento, tomou contornos do domínio do incrível. Ao seu lado estava agora um magnata, pensava, e por consequência, queria dialogar com aquele senhor alto, louro e de porte altivo que o acarinhava, mas não conseguia.
O petiz tentava dizer ao senhor inglês que era Natal, e olhando para a ornamentação das ruas de Lisboa, tentava que ele percebesse que nesta quadra era usual darem presentes às crianças, e que o que ele queria era aquele instrumento de som que estava ali na montra a sorrir-lhe. Dizia-lhe gesticulando que de guitarra em punho gritaria ao mundo que era livre, que era pássaro, sol e mar. Diria tocando a toda a gente, que a felicidade não passa por ter uma casa, um carro ou um lar; mas que só se é feliz, se se for livre, se não se for de ninguém senão daquele Jesus que por nós morrera um dia – já recuado no tempo - mensagem que lhe fora ensinada por uma senhora bondosa que vendia flores na Praça do Chile e que sempre que o via, lhe dava algum dinheiro pedindo-lhe que fosse comer. Muitas vezes a Esmeralda levava-o a sua casa e dava-lhe aquele banho quente que ele tantas vezes renegava, mas depois do qual se sentia bem disposto e até feliz.  »»»

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