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UM CONTO DE NATAL

( parte 1 de 5 )

Chamava-se Manuel como tantas outras crianças portuguesas. Vivia sozinho e desintegrado de todos. Tinha as ruas de Lisboa e as sarjetas da cidade grande como família. Corria de um lado para o outro, roubava aqui, pedia acolá, e era vê-lo feliz, trepar ruas acima em direcção dos bairros mais antigos da cidade capital.
Num monólogo que ninguém conhece, o menino de rua dizia de si para si, que, lá no alto da cidade das sete colinas, viviam os homens iguais a ele, aqueles que eram capazes de amar, porque sempre que subia aquelas ruas, nunca voltava de mãos a abanar; acrescentava que o povo é gentil, que compreende as crianças que como ele, são meninos pardais de telhado. Triste pensava que, nunca subira às casas do povo sem que de lá voltasse sem côdea de pão ou agasalho, porque os homens pobres sabem o que é viver do nada e sem nada. Conhecem as dificuldades da vida e as situações de fome e de miséria. O Manuel pensava na tia Rita, uma varina opulenta que ganhava o sustento na zona da Praça do Chile. Com olhos perplexos pensava, nas muitas vezes que corria com ela, estrada abaixo, na direcção da pastelaria «ÁGUIA DE OURO» e entrados no estabelecimento, a velha senhora paga-lhe sempre um galão e um bola de Berlim. Era uma mulher boa aquela senhora que – para muitos – não tinha o direito de ser chamada de Dona. O menino reflectia que, quando se despedia da amiga, deixava que grossas lágrimas o invadissem, porque afinal ela era das poucas pessoas que gostavam dele.

Este filho de ninguém pensava assim quando – num ápice recordou – uma montra que vira há dias. Lá dentro estava o brinquedo da sua vida, aquele com o qual sonhara toda a vida: era uma espécie de guitarra daquelas que os cegos da Rua Augusta usavam sempre. Imaginou-se tocando sozinho uma caprichosa melodia de Natal, ali em pleno Rossio. Honraria os céus pela oferta com notas de música porque só com palavras dizia – algumas vezes a Jesus – que se sentia fraco, mas forte. Como seria excelso tocar para os anjos, pensava, mas com aquela guitarra, cujo som faria as delícias da sua alma!
Os dias passaram, mas aquela guitarra fazia parte da sua existência e, uma noite de aguaceiro pertinente, quando permanecia encostado ao Zé da Viúva, um alcoólico que vivia por ali há já algum tempo, o Manuel foi às nuvens mercê de um sonho lindo: alguém que viria de fora estendia-lhe a guitarra para ele tocar e dizia-lhe devagarinho, toca até ficares cansado!

Dias volvidos sobre o sonho, o mundo abriu as suas asas para esta criança, pois chegado ao Cais do Sodré – numa manhã fria, mas bonita viu um marinheiro inglês daqueles que aportam semanalmente ao largo do Tejo. O homem chegou perto dele para lhe falar e chorava soluçando. A criança ficou estupefacta e tentava perceber porque é que aquele senhor de galões o tratava com tanto carinho. Ninguém lhe dizia o que quer que fosse, mas a determinada altura mercê da sua estupefacção, um marinheiro novo e português, descodificava num português simples o que o almirante dissera ao Manuel. Devagar começou por lhe dizer que o choro do senhor se devera ao facto de o achar muito parecido com um seu filho que morrera de cancro havia quase dois anos.  »»»

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