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FICARAM AS CINZAS
A MONTANHA CHORA

Lá longe avistava-se opulenta a serra.

Linda, pintada de tons verdes, quase queria oferecer aos visitantes uma caixa de música com um bailado tocado ao som de uma qualquer melodia clássica. Todos os que punham os olhos naquela aguarela, ficavam estarrecidos com o quadro paradisíaco que a natureza lhes oferecia.

Lindo, quase belo de mais!

Ali o bulício não existia, a azáfama dera lugar à paz e o ruído escutado era emanado dos vastos arvoredos que, ao sabor do vento, também eles rodopiavam. As aves cantavam felizes, e haviam feito da montanha o seu habitat permanente. Quantos casamentos de pardais aqueles montes haviam testemunhado?! Tantos, que nem sabemos dizer quantos. O melro prazenteiro como sempre anunciava a sua chegada depois de sete voos pela copa das árvores mais frondosas, e só depois parava para alugar casa e chiar, repousando, a seu belo prazer.

Mas tudo isto já foi. Agora o tempo moeu a mó. O Homem perdeu a noção da gratidão que teria que ter pela montanha, pela várzea e pela planície e, movido de loucura, matou todo o repouso de outros tempos. Agora, lá longe, avista-se moribunda a serra. O «frontispício» está suado e tudo o resto são rasgos de memória que o Homem trucidou. O Homem matou a montanha, acabou com os seus sonhos multicolores, e hoje aquilo que era alegria para o olhar, tornou-se dor de ver.

Agora a montanha está doente, sofreu queimaduras de profundíssimo grau, e ficará eternamente marcada pelo excesso de fogo que lhe percorreu o corpo. Os técnicos de saúde «os soldados da paz» tentaram libertá-la das mãos do falso gladiador, mas não tiveram sucesso. Vieram de todos os lados meios para acalmar, mas o veneno era muito e ela apodreceu. Reduziu-se a cinzas e, outrora verde, agora sofrida a metamorfose, está da cor da dor.

Hoje é uma caixa de música que parou de tocar, porque o coração acusou o cansaço. A montanha adoeceu, de tal sorte, que o artista diz que ela morreu! E o pastor onde está agora? O que fizeram do tio Manel que era agricultor na encosta? Ninguém sabe. Foram embora com as cinzas, desapareceram! Há quem diga, que não voltam. Um gavião que passou por aqui há meia hora, disse que o pastor subiu às nuvens. Foi procurar as suas ovelhas que o fogo afugentou. E o tio Manel dizem, está hospitalizado, mal da cabeça, sem memória e diz que só volta quando a montanha parar de sofrer. Eles não entendem! Com o coração perdeu-se-lhe também a razão. Está desfeito! A vida foi-se-lhe embora com o fogo posto. A montanha adoeceu e nas dores sofridas ficaram as casas ardidas e os homens sem a seara, o pomar e as veredas. Até as casas, os estábulos e as eiras fugiram para muito longe, porque as queimaduras profundas que sofreram obrigaram à fuga. Até o vento desesperado corre tentando encontrar aqueles que viu nascer aqui. Até ele não entende, que se foram embora de vez, para não mais voltar. Há pouco, um poeta que fazia da montanha o seu espaço de eleição, gritou - há pouco - que a faria «renascer das cinzas», mas será possível que isso aconteça, com o Homem à beira da loucura?!

 

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