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AMO-TE
 

Por te querer demais fugi.

Trepei rio acima em busca dos meus arsenais de memória, mas tudo foi infrutífero, porque apesar de me ter escondido numa burka de sóis e raios de luz, fui ter àquele lugar que só tu e eu conhecemos ? o nosso ninho de amor. Havia jurado que te relegaria para segundo plano, porque a pessoa feroz e maldizente que se esconde por detrás de ti, provoca-me um tédio existencial à altura do «Gigante Adamastor». Temo os teus enlaces, os teus pergaminhos de memória, que me ferem a alma e o coração. Quando te revejo naquelas quimeras que tracei a ponto iluminado, fujo rapidamente, porque não quero que me alcances.

Sei que jogo o paradoxo vida/morte, mas também estou consciente de que ele me traz uma linha contínua onde posso ver escrita a frase «... sem ele serás feliz»! Quero segurar-me aos ramos de uma árvore frondosa e gritar que «... não sou de ninguém», que me amo acima de qualquer tristeza que me possas oferecer, e por isso, vou em frente e a passo largo.

Fujo de ti, da tua imagem excelsa, dos teus braços hercúleos, porque contigo sou dor, desalento, fobia e tantos medos. Perto de ti, sinto-me à beira do holocausto, porque tu já foste o meu sustentáculo e hoje, não és senão, flecha apontada à minha alma a toda a hora. Sei que te amei à loucura, que foste fantasia e rosa púrpura pela qual bradei aos céus; todavia o vento mudou o rumo e fez-me chegar ? mercê da experiência ? a mensagem mais verdadeira que algum dia ditou «... foge, porque se ficas viverás sempre escondida atrás da tua alma».

Segui este conselho doado pelos deuses e fugi do teu querer e do teu poder. Andei perdida por montes e vales, mas conclui ? depois de ter olhado o meu espelho ao pormenor ? que me fariam falta as tranças que querias que cortasse, as borbulhas que insistias para que tirasse e as saias curtas que querias que prolongasse. Se tirei tudo o que querias, já recoloquei, e dir-te-ei que por te amar demais, fugi de ti e de mim, porque em ti a felicidade não tem porta de entrada nem portal de saída. Tu és monte agreste, floresta de mil arbustos onde o sol e a chuva se escondem. No dia em que ? por amor disseste ? me espancaste, deixei-te cair da Torre de Babel e pintei para ti ? em Arte Nova ? o Quadrado do NÃO.

Corri mundo esquecida da violência, cruzei ruas, vielas, esquinas e portadas, mas apesar do corrupio fui encontrar-te de novo, à porta do meu silêncio e no seio da minha recordação. Ralhei comigo, contigo, com o mundo, mas num lamento profundo encetei nova corrida e parei ? aqui e agora ? porque amar-te não posso, não devo. Todavia creio que vou encontrar-te noutra era, noutro lugar, talvez noutra vida, porque por mais longa que seja a corrida, tu serás sempre mais veloz que ela. Acredito que se morre, mas creio que se volta, assim sendo quero fazer-te acreditar que, voltarei naquele dia, daquele século maior para te amar de novo, melhor e com o teu ser modificado. Fica à espera... afinal eu AMO-TE!!

 

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