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AMÁLIA, RAINHA DE PORTUGAL

( parte 1 de 2 )

       Xaile traçado e de olhos num alto promontório perdidos na contemplação do infinito, percorreste ontem as ruas da tua cidade de eleição.

Mal acordaste, pela madrugada sentiste que aquela cama não era mais a tua e que aquele berço de pétalas onde estavas, estava condenado a não ser mais o teu. Abriste os olhos devagar e, à imagem de qualquer menino, deitaste algumas lágrimas, porque não querias mudar de quarto, não querias sair daqueles aposentos que te guardavam há quase 24 meses, mas os homens comandam o universo, e com a tua apologia ou sem ela (dir-nos-á um dia) tiveste que acordar no dia 8 de Julho de 2001 mais cedo, pois urgia começar a mudar o inventário do teu ser cansado.

Sorrateira despediste-te de todos os vizinhos, e com cuidado arrumaste as flores do teu jardim. Tiraste o teu álbum de fotografias, porque afinal, saias daquela casa pequena para um monumento erguido no seio desta Lisboa que te ama e que quer de sobremaneira. Qual pássaro chilreador, cantaste «Amália... quis Deus que fosse o teu nome...» e os teus vizinhos saudosos, mesmo antes da tua partida, aplaudiram de pé e pediram-te que, apesar de saíres daquela alameda de todos não te esquecerias de vir, de quando em vez, saudar e cantar para aqueles que foram durante tanto tempo, o teu equilíbrio e o teu apoio na solidão do mundo dos ecos surdos.

Mas sempre alegre e confiante no futuro, mantiveste-te de xaile traçado... retocaste a maquilhagem e de fato aprontado ficaste quieta à espera da hora da festa do adeus.

Estava uma madrugada lindíssima «marchetada de mil tons» quando alguns nenúfares entrados por ali dentro... limparam com agrado a tua casa bonita e te trouxeram devagar para um espaço sumptuoso de onde escutarias mil aplausos, gritos do povo que te ama demais e, os anjos celestiais unidos ao homem comum gritavam também «...és de todos e não és de ninguém... agora és de Deus, mas és Senhora de Portugal...»!

Ficaste linda de bandeira traçada no seio do teu ser e quase parecias coroada à imagem de qualquer rainha universal.

Observamos-te e vimos-te qual deusa por entre ninfas saltitantes e excelsas a aguardar a festa da gratidão de todo um povo que teve Camões como mestre dos poetas, Fernando Pessoa como deus da poesia, João de Deus como pedagogo maior e tantos outros homens que o céu eternizou a seu tempo; todavia apesar de tantas obras feitas no espaço que é nosso poucos foram aqueles que, tal como tu, deixaram na alma das gentes aquela perda esquecida e dorida que permanece saudosa até à eternidade.

Ficou em Portugal o teu canto solista, o som da tua guitarra, a imagem da mais bela mulher que sem galanteios levou a língua de Portugal além dos espaços por demais excelsos.

Cantou-se em português na África, na América e na Ásia contigo, e em português se chorou, mercê da palavra saudade que tão bem vincaste na memória de todos. »»»

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