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ADEUS

( parte 1 de 3 )

Quando cheguei a casa quase não te reconheci.
Estavas verdadeiramente perdido por entre gente que eu não via há muito. Dir-te-ei que foi de sobremaneira difícil perceber que, pela primeira vez, não me abraçavas ao contrário de sempre.

Quase enlouqueci quando entendi que estavas atónito, esquecido de tudo e de todos e que o teu arsenal de bondade, era agora um barco blindado perdido no oceano. Olhei-te, toquei-te durante quase três minutos e conclui que estavas decerto à espera, que um carro multicolor feito de pétalas suaves viesse buscar-te para te levar para junto de tantos que amaste demais, e por quem choraste anos consecutivos.

Fui para perto da nossa janela, daquela por onde contigo naufraguei nos contos que me ditavas a meiga voz, e vi que o luar de Agosto estava disposto, também ele a saudar-te, mais uma vez. Cansei de olhar a lua, as estrelas e percebi atónita que o meu mundo se reduziria a um turbilhão de nostalgia quando percebesse que havias adormecido para sempre. Não quereria, naquele momento, outro companheiro que não o meu manto de dor, suado, inóspito e fiz minhas confidentes as estrelas do céu cristalino tão perdidas como eu, pelo teu fecho desnudado. Incrivelmente, naquela hora de amargura, fiz a mais bela das analepses e fui contigo até à minha infância. Viajámos juntos até ao meu leito de nascimento e rimo-nos quando eu chorei depois da parteira me ter tirado do ventre da mãe. Depois corremos por uma grande alameda de pinheiros mansos, oliveiras e brincámos ao toca e foge, de tal ordem, que estávamos totalmente extasiados.

Seguidamente, levaste-me à escola, deste-me mil beijinhos e disseste com a tua voz meiga que eu teria que ser uma mulher grande, uma menina inteligente que te pudesse honrar o nome. Ali jurei-te que estudaria, de tal sorte, que faria de ti o homem mais realizado de entre todos. Depois galgámos os dois até à escola grande, até à casa do saber crescido e ensinaste- me a ler poemas e prosas, ensinaste-me matemática, fonética, morfologia, geografia e contente – à minha imagem – gritaste de alegria quando os testes ditavam o bom e o excelente. Também te vi chorar, quando nalguns exercícios de matemática viste aquela negativa que parecia não ser sucesso.

Depois foste demasiado meigo, foste o meu eterno amigo, o macro conselheiro, porque aceitaste, de modo incrível, que eu te tivesse trocado.

É verdade, lembro que naquele Fevereiro muito frio aceitaste que as minhas pernas tinham crescido, que eu estava uma mulher e que o Cupido havia feito das suas. Contrariamente à mãe, foste de uma docilidade ímpar e disseste-me que, se eu queria ser feliz amando, tu só terias que aceitar, porquanto amar é viver, e viver consciente de que tudo se faz em estado de graça.  »»»

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