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DOIS ANOS SEM AMÁLIA
A SAUDADE DA SAUDADE

( parte 1 de 2 )

    Volvidos dois anos sobre o ADEUS ao mundo, contracenas diariamente com os grandes vultos da Literatura Nacional e dialogas – como amante da poesia que eras – muitíssimo com Almeida Garrett. Antevejo imensos serões onde o tema subjacente é, indubitavelmente, a semente da vida, O AMOR. Linda foi a análise literária que ambos fizeram, ontem, acerca de vários textos do mestre, nomeadamente «NÃO TE AMO» e «ESTE INFERNO DE AMAR».

Quando te pronunciaste sobre o primeiro texto, ficaste por demais encantada, porque sempre percebeste que os homens, amam de sobremaneira uma alma, e não um corpo, uma vez que o querer voraz do físico é deslumbramento... é paixão que cedo se apaga. Sabias, desde sempre, tu menina do povo e diva do mundo, que o corpo - por vezes - traz inóspitas feridas que conduzem o indivíduo a gritar que a beleza física é de todo imprecisa, porque contrariamente - é um conjunto de dados morais - que conduzem o Homem à Via Láctea e à recepção de um sentimento de macro valência (o amor puro).

Ficaste perplexa, quando percebeste que, desde o século XIX, Garrett gritava esta verdade, e que apesar de todos os avanços, as meninas feitas mulheres continuam a não entender que a beleza física é efémera à imagem da própria vida, e que outros «valores mais altos se levantam». Ficaste estupefacta por a escola ser um espaço de ensinamento destes textos, e por teres constatado – em vida – que a ideia do belo continua a percorrer o mundo sem contornos de paragem. Hoje quando temos testemunhos verosímeis deste estado de coisas – disseste angustiada -, a mulher continua (apesar de culta) no seu posto de sedutora, pensando que por ter nascido bonita terá direito supremo, ao arsenal da plenitude, isto é, à «aquisição» de um homem maravilhoso, tão só porque Deus a concebeu qual estátua grega.

Grande foi ontem a vossa salutar discussão sobre esta temática, «O amor feito fogo e desfeito em paixão que se dissolve», porquanto muitos outros entes que como vós - estão no supremo acento dos deuses - se associaram para dizer que o Amor, quando é verdadeiro não se compra em contornos de excelsa beleza física, mas contrariamente, revê-se no embalo de um carinho, de uma partilha e de um sorriso tímido e sedutor.

Quando leste devagar o texto, constatei que deixaste que o rio da «água e do cloreto de sódio» te saudasse, porque percebeste – mais uma vez – que há séculos que os homens gritam que a beleza é «uma caixa fechada», todavia a mulher continua empenhada em mostrar que é deusa de excelsas proporções, e que por isso, será amada por quem quiser e quando entender. Leste devagar o texto... e expandiste o maior do teu espanto, quando pronunciaste por várias vezes o quase refrão, «És bela, e eu não te amo/Não te amo não». Quase quiseste voltar ao seio dos homens para gritar que é verdade, que é assim... e que só será feliz, aquela que pára para pensar, e que percebe de vez, que o corpo é só «...pó, cinzas e nada» contrariamente à alma que qual - estrela brilhante - nunca se apaga, e que por consequência, deve ser trabalhada com primor, de modo a servir de protótipo de continuidade e de identidade femininas. »»»

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