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CRIANÇA SEM DOTE
O sol emerge do seio do horizonte. Por detrás da linha de água, vê-se aquela mancha vermelha que parece saltitar, qual bailarina clássica, ao som da melodia do Renascer. Faz-se silêncio no cimo daquela falésia onde ainda há pouco uns melros cantavam, saudando o observador mais atencioso. Feliz olho extasiada a paisagem e sinto um calor quase humano ao meu lado; é a clareira da paz que faz eco na minha alma doída. Olho à esquerda e à direita e não avisto ninguém. Só eu faço parte de um grande conjunto de gente que ama a natureza peregrina e que - de quando em vez - lhe presta certa vassalagem. Gostaria de ser, qual ermitão, despejado de preconceitos e disposto a fazer do espaço da solidão a caverna da paz perpétua. Só a sociedade me veta esta vontade vulcânica de correr dunas abaixo e construir, no seio daquela rocha solitária, o meu habitat permanente. Aqui o vazio torna-se a essência da vida. Com ele somos gratos por existir, porque gozamos do bem estar de ser e de permanecer. No seio desta calma permanente, sinto inveja do relvado que piso, da areia que calco e do ar que respiro, porque eles são legítimos viventes; eles nasceram para servir a vida, e não o Homem. Infelizmente, nós os humanos vivemos para ser igual ou diferentes do outro; queremos estabelecer dicotomias, vidas desiguais, porque necessitamos de sentir aquela auto estima que foi adquirida com aquele estatuto de douto, com aquele automóvel último modelo ou com aquele sexto andar (num imóvel de nove) virado para a praia: só assim dizemos ser felizes, porque vivemos para mostrar o que já fomos e o que somos. Mercê desta constatação, a tristeza bate-me à porta, mas como estou feliz, faço de conta que não a ouço e continuo a olhar o sol que suavemente me acena do seio do mar. Sorridente, enceto com uma vaga quase solitária, um micro diálogo. Quero saber se ama e quem é o afortunado. A resposta é curta e subtil: amo o mar de onde vim e para onde vou. Foi-se embora apressada, supostamente preocupada com outras possíveis questões. Fez bem, porque se ela ficasse à minha beira, ter-lhe-ia pedido quase o seu diário. Sento-me... a rocha está fria ainda, falta-lhe o calor do astro rei que desponta e, num refrigério digno de registo, está a minha alma. Tenho pena do Homem, das suas ambições desmedidas, da sua alma de gladiador de arcas perdidas. Quando eu era criança, falaram-me do Homem bom, da honra que o marcava diariamente, mas hoje tomo consciência de que, em vez de plantar o jardim do éden, o indivíduo mata a criança que vive dentro dele, e faz de si um gigante, um Golias pronto a arrebatar tudo e todos, desde que disso tenha sede. Reporto-me às crianças, aos filhos de ninguém que, sem passos de existência decifrados, são engolidas pelo mal que assola a mente do matador. Vejo um filme negro: a criança solicita, pede um naco de pão, um pólo das Adidas ou dinheiro para o cinema, mas porque nunca conheceu aquela que o gerou, está exposta à expiação do seu pedido e, a sua vontade só é saciada, à custa da venda do seu ser de menino (a) às hostes do maligno. Se vender a carne, ainda que o faça à força e com pejo, terá aquilo com que sonhou. Se não o fizer olhará eternamente a montra - que o acena feliz - e ficará à espera. Doce quimera que te esfumas para quem nasceu para viver numa camarata governada por mestres desgovernados. O que fizeram de ti, filho (a)?! Onde está a mulher que te gerou? Prometo-te que te entrego a vida, mas a tua porque acredito que, no Mundo ainda há justiça, e essa é a mãe que nunca conheceste. Vais abraçá-la... estou certa! «É a Hora»! <% ShowRating %>
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