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BIG BROTHER

Cansada de ser, escuto a voz da minha própria consciência. Ouço em desalinho o peso do incrível e a voz da insensatez. Fecho os olhos e de pálpebras semicerradas constato, ao longe, uma multidão que grita exasperada, que a estrada não tem fim. Vestem de tons garridos e trazem nas mãos chamas quentes que largam sincopadamente, quando o excesso de dor os assola. Mas, malgrado as queimaduras suigeneris correm de tez ao vento na direcção do Homem... tropeçam, e sem cansaço continuam a procurar "a criança que deixaram na estrada"! 

São velhos e novos, mulheres e crianças que, oriundos dos cinco continentes estão a naufragar no seio de uma terra amaldiçoada pelo vil metal. Eles querem tecto, alimentação, querem encontrar semeados - campos de dignidade- mas, apesar dos esforços, tropeçam sempre em muros pintados de sangue, suor e lágrimas. Esta avenida de gente corre há séculos à espera que o vil metal se cale, de vez, para dar lugar ao mundo apoteótico onde o Amor e a Fraternidade consigam reinar. 

Vejo-os cair, pois tropeçam outra vez e escuto, numa surdina assustadora, o eco desta multidão que solicita que o GRANDE IRMÃO, seja Deus, Júpiter, Jeová ou outra qualquer entidade que lhes forneça o alimento de que carecem para evitar, diariamente que o mal assole as suas vidas. Pedem o fim das chacinas políticas, querem governos sãos e mentes sãs, solicitam o fim do cancro, do HIV e d'outras epidemias que matam abruptamente, independentemente do estatuto social a que se pertence. Choram copiosamente a sua desdita e trazem no peito uma prece: que o GRANDE IRMÃO se lembre de que no mundo só existem continentes físicos, mas com Homens iguais e que, finalmente, inaugure o espaço idílico onde se consiga viver sem atrocidades. 

Mas a vida pesa-me, porque os Media mostram que malgrado o estado caótico da humanidade, o Homem derrete somas astronómicas de dinheiro na componente lúdica, no entretenimento e em - nome de audiências, famas, teimosias e apoteoses. Nascem assim, vontades distorcidas, vidas vencidas de jovens aspirantes a Senhores, e que consequentemente renegam a família, o ser, a vida plena de valores para dissolver a sua seiva de glória numa casa por entre doze desconhecidos, partilhando do mesmo espaço, vivendo do conflito ser/parecer, aprendendo a ser hipócritas, egoístas, falsos ensaístas, maus actores e péssimos encenadores. 

Eles deixaram lares, famílias, escolas, vidas e partiram numa galáxia para uma prisão disforme de onde vão sair ao sabor da sua expiação, mas pela mão de cada indivíduo com quem partilham o quotidiano. Durante 16 horas diárias são o que devem ser e não o que parecem ser, aprendem um NADA amargurado e qual filho de recluso (a) não conseguem caminhar (o espaço é nigérrimo) nem adquirem a comunicação dita justa para enfrentar a cidadania. 

Um dia, quando o Tempo passar e ditar o fim da clausura sairão, qual fila de soldados vietnamitas, estupefactos, alienados, sofridos, sequiosos de um abraço fraterno, de um beijo maternal, porque estiveram tempo demais a sós "por entre a multidão". 

Mas recriando o conto, dir-se-á que em nome do vil metal até os jovens perdem o conceito de autenticidade, de vida, d'alegria e de liberdade. É triste constatar-se que doze combatentes portugueses lutam, lado a lado, partilhando lágrimas, suor e saudade por um monte parco de dinheiro que, cá fora, rapidamente se reduzirá a cinzas. 

Somos nós os adultos, os espectadores, os educadores que devemos fechar a lista e pôr fim à corrida. Os nossos filhos precisam de escola, d'orientação... precisam de uma mente solicita que lhes encaminhe a razão. O tempo passa depressa, é água por entre penedos e consequentemente quando estes jovens, bigbrotherdenses da jaula saírem, tudo será tarde, nuvem, sal e noite, porque o curso ficou adiado, o ano atrasado, o emprego perdido, a mãe cansada, a avó esquecida, os amigos contrariados e o fado perplexo e suado. 

Olho a fila de gente que antevi - no início - e constato animicamente, que todos solicitam o preço deste martírio para amenizar a sua dor, a sua fome, a sua saúde e estou certa que - estes jovens enjaulados - dariam de coração o seu pré a estas pessoas desiguais no espaço e no tempo. Eles são pessoas portadores de uma vontade de mudança comportamental que levados pela volúpia dos media e da aventura embarcaram no mar das tormentas... mas, se solicitados a doar o prémio da clausura à fome e à miséria universais fá-lo-iam, decerto!

Este GRANDE IRMÃO é tão pequeno que condena os jovens a julgamentos sem quaisquer veredictos ponderados - é o salve-se quem poder - porque, afinal, nunca foram réus ou rés... são somente jovens que personificam a aventura. Até quando os Homens levarão tão alto o seu intento de gladiadores de audiências?!


2000/09/25

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