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Onde estás. Quem te fez assim tão diferente da alma que é minha? O que fizeste das palavras que escutaste durante anos consecutivos?! Enterraste a tua vida naquele mar de sargaço e agora persistes em ficar naufragando num mundo que não é o teu. Olho a minha memória, e vejo-a desfeita, «em pedaços repartida»! Sinto pena, sinto raiva de teres saído do espaço que criei com docilidade para te refundires numa aguarela desnudada e sangrenta. Acorda, para a paz que era a nossa, se de facto ela algum dia existiu! Mas acorda mesmo, porque o cansaço assola a minha dor de tal sorte, que quase perco o norte da vida. Estou cansada, exausta de tanto pensar o que foi feito ao longo do tempo! Eu não encontro resposta… eu não sei tecer mais, o bordado que te fiz há muito tempo. Julguei, é verdade pensei, que – sem dinheiro, mas com carinho – era capaz de satisfazer a vida que era a tua! Afinal tudo foram regos cortados a fraco martelo, e o fruto não se fez sentir. Fechaste a gaveta da cómoda e deitaste fora toda a mercadoria que armazenámos durante quase três décadas. Preferiste um material feito de mundos diferentes, de coisas esquecidas, de novidades sarcásticas. Escolheste no fundo de um baú que eu não conheço, uns pergaminhos que nunca entendi, porque vivi sempre dentro de outra espécie de papel. O meu metal era fraco, mas era fácil de moldar, era incipiente mas com finura, chegaria lá longe ao alto daquele promontório que a minha alma de menina havia construído! Que saudade! É verdade… recordo aquando da minha meninice a ausência daquela boneca que por dificuldades nunca me foi ofertada. Fica a saber que no seu lugar eu tive cães, gatos, tive andorinhas e pardais, árvores e carros velhos onde descansou o meu ser de criança. Brinquei com o sol, com a lua e com as estrelas. Mas depois, num tempo mais avançado, vi que poderia deixar de viver na solidão daquilo que não tinha, para construir um arsenal que me permitisse ter bonecas e jogos. E, num dia que tu já esqueceste comprei uma oferta bonita com o primeiro dinheiro que tive: comprei a vida que hoje é nossa, mas que tu tão singelamente refutaste em nome de outra que eu não conheço. Será aquela que eu tive em criança?! Árvores para subir, andorinhas com que brincar?! Se for essa fico feliz e dormirei naquela paz dos homens, mas se for outra ficarei eternamente a dizer-te que TENHO SAUDADES!
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