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O Português

Lá longe o atropelo do quotidiano obriga-te a esquecer a pátria distante, mas quando a noite cai a exasperação é consequência de uma enorme saudade do céu de Portugal, do manto diáfano cheio de estrelas que, em qualquer estação percorre este espaço majestosamente belo. 

As hecatombes provocadas por viver longe do espaço natal assolam-te a alma quando, por entre quatro paredes, fazes o inventário da tua vida e te debates com duas grandes máximas filosóficas "Penso, logo existo" ou "Existo, logo penso".

Deixas, muitas vezes, que grossas lágrimas te invadam as faces, lágrimas que quase em cascata denotam uma nostalgia enorme. 

Quererias aí, o teu velho pai para te recordar as horas de menino(a) passadas naquela casa solarenga com pássaros, papoilas ou prédios e avenidas perdidas pelo olhar.

Quererias, decerto, escutar os sinos da velha igreja e o barulho dos tamancos da tua mãe subindo as escadas em atropelo. 

Mas, tudo está longe na vida, mas presente na memória, e por isso, olhas alienado o teu filho(a) e tentas cortar-lhe aquilo que a tua memória grita, todavia sentes que ele te olha expectante, mas não te ouve, limita-se a baixar a cabeça em tom de delicadeza, e quando interpelado responde num estrangeirismo forte "outra vez, tem paciência!".

Buscas, inquieto, as faces do teu menino(a) suplicando-lhe que te escute, porque tu tens uma bonita história para contar: 

- Era uma vez um país lindo perdido, na velha Europa onde o teu pai nasceu. Hoje, estão lá os teus avós e mais família que te recordam saudosos, porque quando lá foste eras ainda menino(a). As tuas pernas cresceram, tu cresceste, e hoje já não há quem te reconheça. Só aquela fotografia que lhes enviei mostra a tua pessoa. 

Mas estou triste... tu esqueceste que lá longe se fala uma língua bonita, saltitante com uma sonoridade forte e deleitosa... é o português, um derivado do latim embriagadamente sonoro, súbtil e encantante. Esta língua mastigada enfeitou as mais belas esmeraldas, ela foi a língua de Camões; Camões que tu conheces e a quem o Mundo inteiro deu o maior crédito. Mas hoje muitíssimos anos volvidos, o mundo está a esquecer aquela estátua literária que gritava Por - tu - gal é um país de heróis aventureiros.

 A nossa língua serviu para pintar as mais belas histórias passionais. Direi que foi Camilo, Júlio Dinis e Herculano que delinearam quadros a óleo e mostraram homens portugueses que souberam a mar até à exaustão. Mas não ficou por aqui, porque vieram outros nomeadamente Eça, Antero, Pessoa e Sofia gritaram as nossas histórias... as situações disfóricas da nossa sociedade. Foram panóplias de encantos narrados e descritos que tu queres desconhecer por vontade própria, por alienação.

 Eu sei... fiz-te nascer, aqui, e agora pago a amargura de te saber ausente do meu solo e do velho cemitério para onde quero que me leves aquando da morte. Queria pedir-te como homem culto que és que, na faculdade, em casa ou no emprego, falasses ou pelo menos pensasses em português... afinal és neto da velha Lisboa, bisneto do Tejo e descendente da bandeira das Quinas. 

Ouve, pede aos teus superiores que cultivem esta língua, a de Portugal, a de Eusébio e de Amália... solicita que abram escolas onde se fale este valor tão esquecido no tempo, porque Portugal é pobre, não tem divisas para dar, mas tem generosidade e hospitalidade suficientes para galgar muros de glória. Vê o caso da Guiné, de Timor e tantos outros. Não deixes, jovem (filho, a) que eu morra consciente de que, para te dar um mundo de bonança, sem fome nem frio e com escola e sabedoria, fique exposto à expiação de um grande pecado - Portugal esquecido nas teias da minha própria necessidade. 

Para ti, uma última prece... fala o português de Portugal, porque se te vir fazer isso, posso finalmente morrer em paz.


2000/05/31

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